O que vai acontecer, ainda sobrará Brasil?

Jaime (1)

Jornalista, Jayme Modesto

 

Se um governo atinge 93% de reprovação nos primeiros nove meses, o que vem depois? Qual a extensão real da tempestade que combina rajadas políticas, granizo econômico, gigantescas ondas de corrupção e ventos de impeachment? A resposta ainda é imprevisível, tanto pela permanência de um governo desgastado e desacreditado, quanto em uma eventual queda da presidente.

Para a maioria dos brasileiros e “políticos”, a tormenta é grave e em grau inédito na história e impossível de ser contornada. Pelo menos por enquanto. Entre os gritos de “fica” e “fora”, há silêncios ainda intraduzíveis. Ninguém aposta em mar de rosas, mas uma maioria considerável de analistas acredita na reabilitação do governo, se a presidente se ajudar. E mesmo se ajudando, dificilmente passará dos 20% ou 30% de aprovação, hoje ela tem 7%, segundo pesquisa. A presidente deve terminar o mandato como Fernando Henrique, que, embora não possa ser considerado um presidente mal sucedido, nunca mais pôde aparecer em uma campanha eleitoral, pelo alcunho pejorativo criado pelo PT de FHC do mau.

A presidente precisa de um apoio que vá além do Congresso. Só assim ela sobreviverá com certa segurança até 2017, quando enfim, a economia deverá dar sinais de recuperação. Mas a relação com movimentos sociais e sindicatos está abalada desde que o governo tornou mais rígido o acesso dos trabalhadores ao seguro-desemprego, à pensão por morte, auxílio doença e o famigerado ajuste fiscal. Para piorar, as denúncias de corrupção não devem dar trégua, dificultando qualquer tentativa de emplacar uma “agenda positiva”.

Como a Lava-Jato não tem previsão de término, a capacidade de resistência e de articulação do governo é colocada à prova de forma permanente. Segundo um procurador da República, as investigações devem demoram ainda dois anos. Eu pergunto: sobrará Brasil?

O quadro é dramático. Houve uma derrocada do poder presidencial. A presidente perdeu a capacidade de liderar a agenda política e de pautar o Congresso comandado por um inimigo, Eduardo Cunha. Isso tudo é fato. Há um fator fundamental para que o impeachment ocorra de fato, muito mais decisivo do que uma eventual condenação da presidente por pedaladas fiscais, muito mais determinantes do que o desenrolar da Operação Lava-Jato. É preciso que haja uma mobilização e consenso na sociedade.

E, por enquanto, ainda não temos. Embora ainda pareça improvável, não é impossível que o tal consenso na sociedade se materialize mais adiante. Foi o que houve com Fernando Collor, em
1992, quando o então presidente foi à TV pedir apoio do povo e recebeu em troca o repúdio unânime das ruas. Portanto, se porventura os escândalos de corrupção atingirem a presidente mais diretamente, a ponto de nem o grupo que apoia o PT sentir-se confortável para defendê-la, a ponto de grande parte de a base aliada avaliar a situação como insustentável, aí sim, a presidente
pode cair.

A verdade é que, até aqui, nem na oposição há um consenso. O senador Aécio Neves, simpatiza com o impeachment desde que o vice- presidente Michel Temer também caia, hipótese bem
remota. Neste caso, quando o afastamento ocorre na primeira metade do mandato, uma nova eleição precisa ser convocada em até três meses e Aécio seria o nome mais forte entre os eleitores.
Ao avaliar um eventual processo de afastamento da presidente, a oposição calcula riscos. Caso a cassação seja levada a cabo prematuramente, um dos temores é que o PT possa ressurgir com o discurso de que foi vítima de um golpe, o que talvez fortalecesse uma candidatura de Lula em 2018.

Diante de tantos, porém e incertezas, muitos analistas tendem a acreditar que a presidente sofrerá mais desgastes caso permaneça no cargo do que se for removida dele. A menos, claro, que surjam fatos novos que a liguem diretamente aos escândalos da Lava-Jato. Enquanto a tempestade segue seu curso e o convés oscila, a população aguarda que a borrasca passe sem levar tudo a pique. Ainda há muito mar pela frente.


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