Ana Maria Índia, a “menina de ouro” de Barreiras

Por Cathy Rodrigues – DRT 4317/BA e Osmar Ribeiro

Fotos: Osmar Ribeiro e arquivo pessoal da atleta

 

Ela é faixa preta de jiu jitsu, domina boxe, wrestling, Muay Thai e luta livre, vive dentro de uma academia carioca, treina sete horas por dia e sonha em ser a melhor do mundo

A história de Maggie Fitzgerald, vivida pela atriz Hilary Swank, no filme “Menina de Ouro”, poderia ser, sobre outras nuances, é claro, a saga de vida da barreirense de 34 anos, Ana Maria Soares, a “Índia”. Ambas as personagens são humildes, determinadas, começaram a lutar “tarde” e tinham o mesmo sonho: se tornar a melhor lutadora. E com garra e determinação, elas foram à luta, usando punhos e almas corajosas, desafiando um universo predominantemente masculino.

 

Diferente de Maggie, que era pugilista, Ana Maria Gomes domina também, além do boxe, mais quatro modalidades: jiu jitsu, wrestling, Muay Thai e luta livre. Faixa preta em jiu jitsu e lutadora profissional de MMA (Mixed Martial Artes), Índia treina sete horas por dia – e com homens. Sua paixão pela luta é tão avassaladora que ela mora dentro da academia que treina e dá aulas, a Team Nogueira, no Rio de Janeiro, onde mora há oito anos. Largou a faculdade para lutar e a luta passou a ser sua faculdade, e a faixa preta o seu diploma.

 

Ana Maria foi embora de Barreiras aos quinze anos de idade. Aos 21 anos, estudante de Biomedicina em Marília, interior de São Paulo, ela fazia capoeira. Mas, foi o jiu jitsu que a arrebatou. “Eu fiquei encantada com aqueles homens fazendo todos aqueles movimentos corporais incríveis, com inúmeras possibilidades. E então, eu disse para mim mesma que se um homem podia fazer aquilo, eu também podia. Aliás, mas do que poder fazer, eu queria fazer. Um dia eu comprei um kimono, e foi paixão à primeira vista. Comecei a treinar e aquilo foi me absorvendo inteira. Com três meses de treino, eu participei do meu primeiro campeonato. E até hoje, depois de 13 anos treinando, quando eu visto meu kimono, me arrepio. E diante desta emoção, eu tenho a certeza que eu não poderia ser outra coisa”, declarou a atleta.

 

VITÓRIAS

Ao ouvir o hino nacional sobre o tatame após uma vitória, Ana Maria disse a si mesma: “Deus, deixa eu sentir isso pra sempre, por favor”. Deus ouviu a sua prece. Ela é bi-campeã brasileira (2008-2009), campeã do National NOGI USA 2011, campeã panamericana CBJJO 2008, campeã Copa do Mundo 2007, campeã Norte Nordeste peso e absoluto, vice campeã mundial CBJJ, vice campeã mundial CBJJE e vice campeã seletiva Abu Dhabi.

 

Segundo a atleta, sua infância e adolescência em Barreiras foi muito feliz, livre e ativa: “Morei na minha cidade natal até os 15 anos, mas parece que foram 40, de tão intenso. Eu sempre fui hiperativa, andava de bicicleta e a pé por toda a cidade. Adorava tomar banho de rio, cachoeira, pular de pontes. A minha infância de interior foi a minha base forte para viver no mundo. Eu ‘rodo’ lugares e países sozinha. A minha liberdade e segurança de hoje conquistei onde nasci. Eu sei que posso viver em qualquer lugar do planeta”.

 

Durante sua carreira, um fato não planejado aconteceu: Ana Maria ficou grávida. Contudo, decidida a ser uma das melhores lutadoras, senão a melhor, ela seguiu em frente. Voltou a Barreiras para ter uma gravidez tranquila, treinou até os cinco meses de gestação, e um mês após o nascimento da filha Rayra, hoje com dez anos, voltou a treinar. Cinco meses depois, foi para Salvador, participar de um campeonato e ganhou. “Tinha uma voz interna forte me mandando continuar. Eu sabia que não havia começado a treinar tão jovem, como a maioria dos atletas e a gravidez não seria um motivo para que eu parasse, pelo contrário. Não havia mais nada que me fizesse parar. Sempre quis ser a melhor do mundo, nunca tive outro pensamento, e no ano que vem eu serei”, afirmou.

 

MMA

Sua estreia no MMA foi com uma mulher de 100 quilos e Índia tinha 60 quilos na época: “Ganhei uma medalha, destas simples, que se compra por menos de dez reais por aí. Mas fiquei muito feliz”, diz sorrindo, e minutos depois, chora emocionada ao dizer que não tem o dinheiro que todos pensam que ela tem: “Eu não tenho grana para nada. Eu larguei tudo que eu tinha para ir atrás do meu sonho. Já cheguei a lavar carros para participar de campeonato. Eu moro dentro de uma academia, eu ando de ônibus e conto com a ajuda de minha família e de amigos. É incrível o que as pessoas fazem por mim, sou uma pessoa determinada, mas de muita sorte também”.

 

Entre esses muitos amigos está o também baiano e lutador de MMA, Rogério “Minotauro”, um dos donos da academia que Ana Maria treina e mora. “Ele é meu segundo pai, meu ídolo, uma pessoa extraordinária, generosa demais, e que me abraçou no mundo da luta”. Sobre viver longe de sua filha, Ana Maria é segura ao afirmar que nunca deixou Rayra para ir em busca de seu sonho: “Nunca nos deixamos, eu fiz um acordo com ela, é uma opção dela também morar em Barreiras. Existem pais e filhos que moram juntos e, no entanto, estão distantes afetivamente. Não é o nosso caso. Eu seria egoísta se levasse minha filha para morar comigo neste momento. Além disso, essa é a vida que eu escolhi pra mim, e quero que Rayra também escolha a vida que ela quer”.

 

Índia, que ganhou este apelido dos fãs por trançar os cabelos pretos e longos antes das lutas, afirma que nunca pensou em desistir, mesmo diante das dificuldades e preconceitos: “O preconceito não é meu, é de quem o sente. Vivo à vontade entre os homens. Quando comecei a lutar eu não tinha referência feminina alguma. O fato é que eu sempre quis ser a melhor do mundo em alguma coisa, e vou seguir com esse objetivo até o fim. Não conheço nada fácil na minha vida, mas tenho talento e estrela e, sobretudo, busco muito. Gosto de fazer as coisas acontecerem. As coisas que busco eu quero. Não tenho vontade de ser campeã, vou ser campeã, e as dores fazem parte da glória”.

 

SÓ PERDE QUEM LUTA

 

Seu ritual antes da luta é fazer suas tranças. “Quando eu começo a trançar o cabelo, me transformo”, explica ela. Sobre o que pensa antes de uma luta, ela é enfática: “Mentalizo que a luta acabe logo, quanto menos ela durar, melhor. Penso em sair do embate sem me machucar e sem machucar muito o oponente. Penso em lutar bem, sei que perder faz parte, só perde quem luta. O mais chato é a luta não render, não fluir. A impressão que fica é que você perdeu para si mesmo e não para o adversário”.

Índia está em Barreiras se recuperando de três intervenções cirúrgicas no joelho. Mas garante que muito em breve já estará de volta aos treinos, para que em janeiro do ano que vem consiga passar na seletiva de Abu Dhabi. Que a “menina de ouro” barreirense vença mais essa!

Fonte: Falabarreiras


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