Dom Luís Cappio não poupa adjetivos para desqualificar o governo

Jayme Modesto

No aniversário de 100 anos da Diocese de Barra, o Bispo Dom Luiz Flávio Cappio, concedeu entrevista a equipe do Jornal Gazeta do Oeste e falou da restauração dos monumentos históricos e religião, e não poupou críticas ao governo federal com relação a “Transposição do Rio São Francisco”.

Dom Luís Cappio ficou conhecido mundialmente pela postura e posição firme com que trata as questões do povo ribeirinho.

Desde 2009 ouvimos e lemos desabafos de Dom Luís Cappio, em um deles o bispo dizia: “É incrível a postura de um governo, que foi eleito pelos pobres deste país, ao desprezar tanto as verdadeiras necessidades do povo e se tornar totalmente insensível diante das imensas carências deste mesmo povo. O meu sentimento é de tristeza, em ver primeiramente o povo ser maltratado, comunidades colocadas totalmente de escanteio. (…) Fico triste com essa postura ditatorial de um governo que se diz do povo”.

Cinco anos se passaram e Dom Luís Cappio continua decepcionado com a posição do governo em manter uma obra que segundo ele não resolverá os problemas do semiárido.

Jornal Gazeta do Oeste (JGO) – Depois de tantos anos, como o senhor avalia o projeto de transposição das águas do Rio São Francisco?

Cappio – Tudo aquilo que nós dizíamos nos momentos de jejum aconteceu. As obras estão paradas, um desperdício de recursos públicos que poderiam ter sido utilizados para verdadeiramente levar água para o povo. Esse projeto é muito mais voltado para segurança hídrica para os projetos agroindustriais, e que não deu em nada. É aquilo que a gente dizia: muito mais interesse políticos e eleitoreiros do que matar a sede do sertanejo, tanto é que nas eleições de 2010 investiram muito dinheiro, ganharam as eleições e parou tudo, agora podem ter certeza que irão aparecer de novo. A mídia vai falar muito na transposição, novamente irão injetar muito dinheiro público, até porque ano que vem é ano de eleição, tudo isso para nada. Se o governo tivesse o mínimo de ética, vergonha deveria humildemente reconhecer a verdade e dizer: nós erramos, houve uma grande falha de planejamento, o projeto não vai dar em nada! Até porque não vai dar em nada mesmo em todos os sentidos, tecnicamente, ecologicamente, socialmente, juridicamente. Mas infelizmente o governo não quer reconhecer, pois é uma fonte de dinheiro tão fácil, é o ralo da corrupção. Eles precisam largar mão de projetos demagógicos, apenas por interesses próprios e pensar mais no povo.

 JGO – E sobre a comemoração de cem anos da Diocese de Barra?

Cappio – O próprio título da festa já diz tudo “Cem anos, um centenário.” Cem anos não são cem dias, e isso significa que muita gente ajudou a construir esta história, os bispos que por aqui passaram dezenas de padres, religiosos, missionários, leigos que ao longo desses anos plantaram tantas sementes fortes, que agora estamos colhendo os frutos. Eu posso imaginar que em 1913 quando a diocese foi criada como deveria ser, se hoje as dificuldades são grandes, imagina há cem anos. Dificuldades de acesso, comunicação, serviços, enfim uma região destituída de tudo e de repente começam as atividades da diocese. Eu sempre falo que a história da região se confunde com a da diocese e vice versa, porque a diocese sempre caminhou ao lado do povo e o povo do sertão é muito religioso, a fé católica faz parte da vida do povo.

JGO – Como o senhor vê essa proliferação das religiões que prometem milagres, prosperidade e curas?

Cappio – Nós temos que distinguir, existem as igrejas protestantes históricas que inclusive existem movimentos ecumênicos no qual a igreja católica também faz parte e que reúne as grandes igrejas e de outras denominações e com essas fazemos uma imensa parceria. Outra coisa é essa proliferação de seitas, então não podemos misturar, existem as conhecidas e valorizadas e existem estas seitas modernas que tem muito mais interesse econômico e lucro do que propriamente de espírito religioso, e isso é muito triste! Percebemos que nosso povo está sendo enganado, e se deixa levar por esta propaganda, este marketing religioso que não tem nada haver com religiosidade, só interesse econômico.

JGO – Como o Senhor avalia o trabalho da igreja católica hoje?

Cappio – Fazemos o nosso trabalho com a presença das comunidades, mas não temos espírito de competitividade. E agora com a presença do Papa Francisco, temos um grande reforço e que nos mostra que o caminho das igrejas é o povo, as comunidades, os pobres. Ele disse uma coisa muito bonita, que o pastor precisa ter o cheiro do rebanho e se este não tiver o cheiro das ovelhas ele não é pastor é mercenário. Com certeza este homem de Deus irá colocar a igreja em seus eixos.

 


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