902 deslizamentos de terra em 12 dias em Salvador

Do dia 1º até as 16 horas de ontem, a Defesa Civil de Salvador (Codesal) tinha contabilizado 60 casas desabadas e 902 deslizamentos de terra

Do dia 1º até as 16 horas de ontem, a Defesa Civil de Salvador (Codesal) tinha contabilizado 60 casas desabadas e 902 deslizamentos de terra. A grande maioria das ocorrências aconteceu nas regiões do Miolo (entre a Avenida Paralela e a BR-324) e na região onde se localiza a falha geológica de Salvador, que compreende toda a encosta que vai do Porto da Barra até a região do Subúrbio Ferroviário.

Nessas duas áreas foram também onde ocorreram as 19 mortes causadas por deslizamentos de terras, nas localidades do Barro Branco (San Martin), Marotinho (Bom Juá), em 27 de abril, e na Baixa do Fiscal, no dia 10 de maio. O dia de maior gravidade foi na última segunda-feira, com 177 deslizamentos de terras e nove casas desabadas, apesar das últimas quatro mortes terem ocorridas no domingo, dia 10.

A perspectiva da chegada de uma nova frente fria, a partir desta quinta-feira pode agravar ainda mais a situação de quem reside nas encostas, conforme adverte o professor titular da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia, Luis Edmundo Prado de Campos. Engenheiro e titular do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (CREA), o professor participou da audiência pública ocorrida ontem à tarde na sede do Ministério Público Estadual que discutiu a ocupação das encostas. Ele endossou a necessidade de evacuação dos moradores dos imóveis situados nas áreas mais críticas da cidade.

O engenheiro diz que nos mesmo com o aparecimento do sol durante a maior parte do dia de ontem, os riscos de novos deslizamentos de terra e desabamentos de imóveis persistem, pois o solo está saturado e encharcado, não havendo tempo suficiente para a sua recomposição. “O que recomendamos é que mesmo a chuva tendo cessado, é preciso esperar pelo menos quatro dias para haver segurança. O ideal é não reocupar os imóveis nesse período”, disse.

Audiência Pública debate Plano Diretor de Encostas

As ações emergenciais e o planejamento de medidas preventivas em relação às chuvas e aos prejuízos que ela provoca na capital baiana foram debatidos na audiência pública, que além de técnicos das defesas civil do Estado e do Município, teve a participação de dirigentes das Defesas Civis de Petrópolis e Florianópolis, e da Fundação Instituto de Geotécnica do Rio de Janeiro (Geo-Rio), e especialistas que lidam com medição meteorológica, análise geológica e prevenção e contenção de desastres decorrentes de chuvas, além de representantes do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Nacionais – Cemaden.

O evento debateu a atualização do Plano Diretor de Encostas (PDE) e a elaboração do Plano Municipal de Redução de Riscos e do Plano Diretor de Alagamentos e Drenagens. Coordenadora do evento, a promotora de Justiça , Habitação e Urbanismo de Salvador, Hortênsia Pinho afirmou que o objetivo principal é avançar na reestruturação da Defesa Civil de Salvador (Codesal) e melhorar o diálogo com os diversos órgãos responsáveis, para que sejam planejadas e efetivadas medidas e ações de prevenção aos transtornos causados pelas chuvas.

Após fazer a explanação sobre a ocupação na área da falha geológica de Salvador, o professor Luis Edmundo ressaltou que se trata de um problema mais de natureza social que físico, e lembrou que Salvador tem um processo de ocupação urbana já saturado. “A cidade praticamente não dispõe mais de espaços físicos e à essa população que em sua maioria migra do interior para a capital, resta as áreas de encostas”, disse.

O professor disse ainda que a evacuação dessas áreas, como vem fazendo a Prefeitura, é uma necessidade emergencial. Contudo, ele chama a atenção para a necessidade de implantação de sistemas de drenagem pluvial nessas áreas e uma conscientização cada vez maior da população sobre a forma como ocupa esses locais.

Falha geológica

Das mais de 600 áreas de riscos e dos mais de 1.200 pontos de riscos em Salvador, uma parte significativa fica localizada na região onde se localiza a falha geológica da cidade. Afora a parte de ocupação mais nobre, que vai do Porto da Barra até as imediações da Avenida de Contorno, com raízes que datam do período de colonização da cidade, as demais ocupações que se seguem a partir do Comércio até o Subúrbio ferroviário, é feita de forma desordenada e por uma população de baixa renda.

Segundo explicou o professor Luís Edmundo, a falha geológica em uma extensão aproximada de sete quilômetros no seu trecho mais acentuado, com uma altura de aproximadamente 70 metros. É nesse trecho que se localizam o Centro Histórico, os bairros da Liberdade (incluindo a Baixa do Fiscal) e o Subúrbio Ferroviário, a partir de Lobato.

Na Cidade do Salvador, esta falha originou o relevo em degrau, separando a Cidade Alta da Cidade Baixa. Para unir essas duas áreas geologicamente separadas, foram construídas diversas ladeiras, como as da Montanha, da Preguiça, da Água Brusca, e diversas outras que foram surgindo ao longo das décadas e mais acentuada a partir da segunda metade do século passado, com a ocupação do chamado Miolo.

De acordo com o Serviço Geológico do Brasil, ou CPRM (Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais), o movimento que formou a falha geológica de Salvador, com o atual desnível aconteceu há mais ou menos 145 milhões de anos, no início do período Cretáceo. Mas as rochas que se deslocaram ainda são mais antigas, datadas do período Pré-Cambriano.

Fonte: Tribuna da Bahia


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