Ajustes na economia do país vão afetar bolso dos brasileiros

Dólar em alta, ações da Petrobras em baixa, inflação subindo e, de quebra, perspectiva de aumento do preço da gasolina. Confira como isso tudo pode afetar a sua vida

A reeleição da presidente Dilma Rousseff vai precipitar uma série de ajustes na condução da economia brasileira, que estavam sendo esperados para o próximo ano. E, apesar das promessas do governo de que as mudanças deverão acontecer de maneira suave, há quem espere alguns trancos e freios de arrumação.

Os impactos mais diretos do que está por vir poderão ser percebidos no mercado de trabalho, cujo crescimento deverá ser modesto, e no aumento do custo de vida, esse sim, com perspectiva de alta, de acordo com analistas. Ao contrário do discurso de campanha, a presidente vai precisar tomar medidas duras para conter a inflação, cujos efeitos colaterais irão causar um 2015 de aperto, com viés de baixo crescimento.

“Os melhores conselhos que eu posso dar para o brasileiro em 2015 é o de ser precavido em relação ao emprego e que busque conter os custos domésticos para tentar fazer o dinheiro sobrar”, afirma o  diretor de Administração da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac), Andrew Storfer.

Ele acredita que, por mais suaves que sejam os ajustes, vai haver desconforto. “A inflação já está fazendo estrago. Tem gente chegando no barbeiro e pedindo pra cortar o cabelo mais baixo que é para demorar mais tempo para ir de novo”, brinca.

Teto da meta
Falando sério, ele diz que o custo de vida deverá permanecer elevado, com a inflação próxima ao teto da meta, entre 6% e 6,5%, tal qual acontece este ano. “O grande problema é que existem custos administrados pelo governo, como os de energia elétrica, combustíveis e telefonia, cujos reajustes foram segurados por muito tempo e que não podem mais ser contidos”, explica.

Por tudo o que está desenhado, a expectativa em relação à taxa básica de juros (Selic) é de elevação. A taxa serve para remunerar quem investe em títulos do governo e é utilizada como estratégia para controlar os aumentos de preço. Quando ela sobe, o crédito é reduzido, as pessoas consomem menos e, como consequência, há redução nos preços. A inflação cai. Além disso, o aumento da taxa ajuda o governo a atrair investidores.

“O governo está gastando mais do que arrecada e não consegue pagar as dívidas dele. Atualmente, não consegue sequer dar conta dos juros desta dívida. É como a pessoa que está no cheque especial ou no rotativo do cartão. Isso leva a uma perda de confiança e faz com que o mercado exija uma remuneração melhor (juros mais altos) para investir no país”, diz.

O economista chefe da FFA Consultoria, Fábio Pina, responsável técnico pela Pesquisa Conjuntural do Comércio Baiano, feita pela Fecomércio, acredita que não fosse a desconfiança que existe em relação à condução da política econômica, o país poderia reduzir os juros no lugar de aumentar. “Quanto menor a confiança, maior o prêmio que é preciso oferecer para convencer agentes econômicos a investirem”, explica. “Não é preciso, necessariamente, elevar os juros, mas é preciso recuperar a confiança. A hora em que se recupera a confiança, essa taxa de hoje, de 11%, que não é suficiente para levar a inflação para o centro da meta, passará a ser”, completa.

Enquanto a tal confiança não existe, os brasileiros pagam a conta. Pina acredita que o setor de serviço perdeu o gás que o impulsionou nos últimos anos, o que deverá se refletir no mercado de trabalho. “Isso (dificuldade para gerar empregos) não ocorria em 2010, 2011 e 2012 porque o consumo crescia a taxas aceleradas. Então, apesar da produção industrial não crescer o suficiente, o consumo compensava porque demandava postos de trabalho no setor de serviços. Agora o consumo também dá sinais de esgotamento”, afirma.

Segundo ele, o nível de consumo acima da produção nacional gerou outro problema, de déficit, porque o país precisa importar uma parte daquilo que consome. “As perspectivas para o varejo não são boas, porque nós estamos gerando menos empregos, o crescimento da renda real não é tão grande. Temos os reajustes salariais, mas a inflação maior compromete. Então, não dá para imaginar que o consumo vai crescer”, diz o economista.

Ele acredita que não se deve esperar mudança no curto prazo. “Ainda que a confiança seja retomada amanhã, existem coisas que já foram definidas. Mesmo que aconteça e a confiança seja retomada, não dá mais tempo para este ano. Vai durar o ano que vem inteiro o trabalho de ajustes. Agora, resolvendo, o país tem todas as possibilidades de voltar a crescer”, acredita.

O analista de sistemas Guilherme Peres, 32 anos, diz que já está se preparando para um ano difícil. “É um momento tenso, em que o meio ambiente vai começar a pesar muito”, analisa. Ele diz que já está percebendo agora as dificuldades que vêm por aí. “Já ganhei bastante dinheiro com ações, mas também já perdi. Perdi com a Petrobras, por exemplo. Mas, a longo prazo, compraria Petrobras agora, porque está barato e vai subir em até 5 anos”, afirma.

Mudanças à vista
Um ponto considerado fundamental pelos analistas para iniciar uma reversão no cenário atual é a escolha da nova equipe econômica. A começar pelo ministro da Fazenda. O atual,  Guido Mantega, recebeu uma espécie de aviso prévio público da presidente da República durante a campanha eleitoral. Já sabe que não fica, mas tudo indica que as primeiras mudanças serão conduzidas por ele. Guido anunciou, ontem, que o reajuste da gasolina vai acontecer ainda este ano.

Após o fim da eleição, quatro nomes surgiram com força, como possíveis ocupantes do cargo. São eles, o presidente do Bradesco, Luiz Carlos Trabuco, o ex-secretário-executivo no Ministério da Fazenda Nelson Barbosa, o ex-presidente do Banco Central Henrique Meirelles e o ministro Aloísio Mercadante. À exceção de Mercadante, que tem um perfil mais político, os demais nomes são identificados pelo mercado como capazes de gerir a pasta de maneira mais técnica que o atual.

Outro que não deve virar o ano no cargo é o atual presidente do Banco do Brasil, Aldemir Bendine, que vem sofrendo desgaste por conta de denúncias de corrupção. Para o lugar de Bendine estão cotados os nomes do secretário executivo do Ministério da Fazenda, Paulo Rogério Caffarelli, e o atual vice-presidente de Negócios de Varejo, Alexandre Abreu, de acordo com  informações publicadas em reportagem de O Globo.

Fonte: Correio da Bahia


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