Aos 100 anos, mãe ainda busca notícias sobre filho desaparecido

NITERÓI – Rio de Janeiro, 21 de maio de 1974. Elzita Santa Cruz Oliveira escreve uma carta para o marechal Juarez Távora, suplicando por informações sobre Fernando: “É justo, é humano, é cristão que um órgão de segurança encarcere, depois de sequestrar, um jovem que trabalhava e estudava, sem que à sua família seja dada qualquer informação sobre o seu paradeiro e as acusações que lhe são imputadas? Que direi ao meu neto quando jovem for e quando me indagar que fim levou o seu pai, se ele não tiver a felicidade de ver seu regresso? Direi que foi executado sem julgamento? Sem defesa? Às escondidas, por crime que não cometeu?”.

É nessa carta que Elzita lançou uma pergunta que repete há 40 anos: “Onde está meu filho?”. Inspirados pela mensagem, amigos de Fernando escreveram o livro cujo nome é justamente o questionamento que Dona Zita fazia a militares. Responsável pelo relançamento da obra, Ricardo Mello compara a luta da matriarca com a da estilista Zuzu Angel, mãe do militante do MR-8 Stuart Angel, morto em 1971:

— Na verdade, ela é a personagem central da história. A dor da família, a procura, a visita aos órgãos de informação, tudo aconteceu por iniciativa dela. O livro é mais centrado na luta de uma mãe à procura de um filho. Toda a dor que Zuzu Angel sentiu, Dona Zita sentiu também.

Aos 100 anos, Elzita ainda espera respostas sobre o filho. Ao longo das quatro décadas, escreveu a ministros, procurou generais, suplicou a presidentes. Viu chegar a Anistia sem saber o que aconteceu com Fernando:

— O desaparecimento é a pior coisa que pode acontecer. Eu tive meu direito de estudar cassado no Brasil, fui para Lisboa e o governo português me proibiu lá também. Rosalina (irmã mais velha) ficou um ano presa, sofreu um aborto provocado pela violência, por choques elétricos. Porém, o mais perverso foi o caso de Fernando, que desapareceu. Esse crime é permanente, não prescreve, não acaba nunca — diz Marcelo Santa Cruz, irmão de Fernando.

Para Dona Zita e seu marido, Lincoln, viver foi, muitas vezes, uma tortura. A espera por Fernando fez a mãe resistir a qualquer mudança: a casa e o número de telefone até hoje são os mesmos, pois ela ainda aguarda um contato.

— Foi difícil precisar o momento que eu percebi que ele não iria mais voltar. Cada pessoa tem uma percepção diferente. Eu acho que passei a acreditar que ele não voltaria com quatro ou cinco meses. Mas mamãe esperou dois, três anos. Acho que pensou nisso até pouco tempo. Ela mantém o quarto dele — revela Marcelo.

— Mamãe sempre demonstrou mais força do que papai. Ele não aguentou tanta tristeza, era muito emotivo. Passava a noite gemendo, dizendo “ai, meu Deus”. Um dia, meu marido perguntou: “Lincoln, por que você diz tanto ‘ai, meu Deus?”. E ele respondeu: “Porque não consigo falar o nome do meu filho” — lembra Maria Auxiliadora Santa Cruz Oliveira, irmã de Fernando.

O neto Felipe Santa Cruz, filho de Fernando, e hoje presidente da OAB-RJ, diz que a avó é um símbolo de coragem:

— Ela teve o cuidado de não deixar esquecer que o desaparecimento dele é uma questão política. Ela não se restringiu ao sofrimento, à dor interna, mas transformou Fernando em alguém importante para a história de um período do país. Ele não era guerrilheiro, não vivia clandestinamente. Minha avó mostrou que ele poderia ser o filho de qualquer mãe.

Fonte: G1

Imagem: Ilustração


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