Brasileiro tem conta, tem cartão, mas não tem o hábito de poupar

Inclusão financeira no país não reflete em hábito de guardar dinheiro

A ajudante de cozinha Fátima Souza Leal, de 45 anos, abriu uma conta no Bradesco há cerca de três meses. A razão? “Fiz a conta porque queria ter um cartão de crédito”, relata.

Hoje, com o cartão já em mãos, ela diz estar satisfeita e lista o que costuma comprar: “Roupas, calçados, passagens para viajar para o interior…”. Mas… e na poupança, Fátima? Já colocou alguma coisa? “Eu guardo um dinheirinho, às vezes, mas quando eu preciso eu vou lá e tiro”, responde.

A história de Fátima é o retrato do povo brasileiro, como mostra um relatório recentemente divulgado pelo Banco Mundial. Intitulado Inclusão Financeira no Brasil: Construindo o Sucesso, o relatório mostra que a maioria dos brasileiros acima de 15 anos – considerados adultos pelo estudo – já possui acesso à conta bancária.

Apesar do crescimento da chamada inclusão financeira, os índices de poupança no país ainda são considerados baixos em comparação com outros países de economias emergentes: somente 21% dos brasileiros poupam.

No topo Quando o assunto é acesso ao crédito, a história é outra. O Brasil ocupa o topo do ranking que mede o acesso ao cartão de crédito, considerado o vilão dos endividados por ter taxas de juros muito altas.

O relatório saúda o governo brasileiro por ter ampliado a inclusão financeira nos últimos anos, mas faz um alerta sobre a necessidade de levar as pessoas a pouparem mais. O relatório, que é inédito, consolida dados de 2010, mas especialistas em finanças e em economia apontam que o quadro atual não é muito diferente.

Renda e educação
Para o autor do livro Sobrou Dinheiro! – Lições de Economia Doméstica, Luis Carlos Ewald, o fato de o brasileiro poupar pouco é histórico. “De maneira geral, o brasileiro poupa pouco. Primeiro, porque ganha pouco. Segundo, porque não tem educação”, resume, apontando para a necessidade de melhorar a educação financeira e o ensino de base no país.

“Vivemos em um país em que a massa é de analfabetos funcionais, não sabe interpretar textos, escrever. Isso influencia no quanto elas gastam e no quanto elas poupam”, acredita Ewald, conhecido como Senhor Dinheiro.

Para o coaching financeiro Roberto Navarro, os dados são reflexo das políticas governamentais dos últimos anos de apostar na concessão de crédito como uma maneira de aquecer a economia. “O brasileiro começou a abrir
conta em banco não porque queria poupar, mas porque foi em busca de crédito”, explicou.

“Muita gente foi ao banco porque viu na concessão de crédito a possibilidade de consumir. Foi ao banco pedir empréstimo consignado, cartão de crédito e outros financiamentos”, explicou.

O especialista ainda aponta que o atual cenário de endividamento tende a piorar no futuro. “Hoje, 51% da classe média está com endividamento acima do grau de risco, ou seja, num grau que compromete a renda dela. Com o grande número de financiamentos de longo prazo como apartamentos e veículos, por exemplo, a expectativa é que essa parcela de endividados na classe média chegue a até 67%”, projeta.

Dados do Banco Central mostram que as aplicações na poupança têm crescido no Brasil pelo menos desde 1995. Em julho daquele ano, o total captado na poupança foi de R$ 57,3 bilhões. Em julho de 2010, esse valor chegou a R$ 349,5 bilhões. Em julho passado, alcançou os R$ 550,2 bilhões.

O Banco Mundial aponta que a origem de 90% da poupança brasileira parte das empresas – a chamada poupança agregada.

Especialistas se dividem sobre melhor forma de poupar
Quando a questão é onde guardar o dinheiro, especialistas divergem. Para Luis Carlos Ewald, o Senhor Dinheiro, a caderneta de poupança continua sendo o melhor lugar para o pequeno poupador. “Nada melhor para juntar dinheiro do que a poupança. Você bota quando quer, tira quando quer, não precisa falar com gerente, não precisa ter conta corrente”, afirma.

As aplicações em poupança são isentas de Imposto de Renda e taxas de administração. Já o especialista em educação financeira Roberto Navarro acha que a poupança é a pior opção. “Hoje, ela está rendendo 0,5% ao mês mais TR. Há meses em que a inflação da classe média chega a 1%. Deixar dinheiro na poupança é perder”, acredita.

Para ele, os fundos de renda fixa multimercados são a melhor opção no momento. “Mas é preciso pesquisar as taxas de administração melhores”. As taxas variam de 0,5% a 5%.

Fonte: Correio 24h


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