Cadeirantes de Salvador têm dificuldades em usar os táxis

Falta carro adaptado para os cadeirantesComo se não bastassem todos os problemas de mobilidade enfrentados com a falta de acessibilidade nas calçadas, nos edifícios e na maioria dos ônibus que circulam na capital baiana, deficientes físicos que podem pagar pela corrida de táxi ainda têm que conviver com a recusa de alguns motoristas, que alegam falta de espaço na hora de guardar a cadeira de rodas.

Salvador está entre as capitais que não possui táxis adaptados para este público, diferente de Brasília, Rio de Janeiro e São Paulo, onde inclusive há a oferta de deslocamento gratuito para pessoas que fazem uso de cadeira de rodas.

Usuária constante do serviço, a presidente da Associação Baiana de Deficientes Físicos (Abadef), Maria Luiza Câmara, revela que é comum encontrar resistência de alguns taxistas na hora de conseguir uma corrida até o trabalho ou na volta para casa. “É uma verdadeira via crucis encontrar algum taxista que queira me levar. Há muita discriminação, pois eles pensam que o cadeirante não tem autonomia, não consegue agir, pensar sozinho”, desabafou, lamentando o fato de a capital baiana não possuir veículos adaptados para receber pessoas com dificuldade de locomoção.

Ela diz que, como representante da Abadef, pensar em entrar com um agravo no Ministério Público exigindo a disponibilidade dos veículos especiais. Há alguns anos, a prefeitura de Salvador chegou iniciar um projeto que previa a oferta de táxis adaptados, mas o assunto caiu no esquecimento. “O ideal é ter os veículos adaptados. Pessoas que têm lesão medular muito alta, que não mexem do ombro para baixo, enfrentam dificuldades ainda maiores para entrar e sair de um táxi comum, só mesmo um veículo especial com acomodação para a cadeira de rodas resolveria o problema”, continuou.

O taxista Fred de Jesus, que atua a 18 anos nas ruas, lembra que alguns alvarás chegaram a ser distribuídos na cidade com a categoria F, que indicariam veículos especiais para transporte de deficientes físicos, mas, aos poucos, os documentos foram direcionados a categoria A, que indica táxi comum. “Não sei se ter  um carro adaptado valeria a pena para o taxista. Modificar um veículo é caro, o equipamento, a manutenção, tudo fica a cargo do taxista e o valor cobrado tem que ser o mesmo da bandeira”, avaliou o motorista. Na opinião dele, deveria haver um subsídio municipal que estimulasse os profissionais a fazer as adaptações para atender ao público cadeirante de forma mais qualificada.

Novo regulamento para a frota atual

O diretor da Gerência de Táxi de Salvador (Getax), Bruno Alves, confirmou a ausência de veículos especiais em Salvador, mas adiantou que a situação já vem sendo estudada pelo município. “O problema é que o atual regulamento da cidade não admite a emissão de mais alvarás de táxis porque a lei vigente permite apenas um táxi para cada 500 habitantes”, explicou. Atualmente, a capital baiana possui 6996 táxis comuns e outros 240 especiais.

Ainda segundo ele, um decreto deve ser publicado nos próximos meses, apresentando um novo regulamento para o setor que contempla, inclusive, a reserva de 5% da frota atual, destinada para veículos adaptados a receber pessoas que utilizam cadeira de rodas. “Após a publicação do novo regulamento, que já está nos últimos ajustes no setor jurídico da prefeitura, os taxistas terão de 15 a 30 dias para fazer a migração do alvará, caso tenham interesse, e depois será aberta a licitação para outros interessados”, continuou. Sem previsão para início da oferta do serviço, Salvador será uma das capitais que receberão os jogos da Copa do Mundo e não possuem transporte adaptado.

Sem táxis adaptados

Duas vans adaptadas para acomodar quatro cadeiras de rodas e mais quatro acompanhantes e um veículo doblô, também modificado para transportar, confortavelmente, uma pessoa que faça uso de cadeira de rodas. Está é a frota da Holos Central da Mobilidade, empresa que atua no segmento de vendas e oferta de serviços direcionados a deficientes físicos. Com a ausência de táxis adaptados para receber este público em Salvador, o serviço de frete, oferecido pela Holos, é uma das alternativas encontradas pelos soteropolitanos.

A empresa, instalada no Vale de Nazaré, trabalha com agendamento prévio, conforme explicou José Avelar, gerente do negócio. “Como só dispomos de três veículos, a demanda é crescente e o trânsito da cidade não ajuda. É importante que se agende o frete com, no mínimo, 48 horas de antecedência”, orienta. No agendamento, o passageiro deve informar o horário e o local de encontro, o percurso da corrida e se haverá necessidade de aguardar para retorno ao local de origem.

Os valores da tabela variam de acordo com as informações da viagem. São cobrados R$ 30 pelo deslocamento até o local marcado, R$ 3 por km rodado e mais R$ 20 por hora parada, caso o cliente solicite que o motorista aguarde para retorno. Os veículos dispõem de elevador, lugar específico para o cadeirante e acompanhante, caso haja, além de seguir a rigor os critérios de segurança estabelecidos por padrões internacionais, conforme garante o empreendimento.

Apesar de reconhecer que o valor não é acessível à boa parte da população soteropolitana, ele afirma que o serviço ajuda a quebrar o estigma de que o deficiente físico tem que ficar preso. “Eles já encontram tanta dificuldade nas ruas, nos edifícios. O serviço tenta quebrar esta cultura de que o lugar do deficiente é em casa”, finalizou o empresário, lembrando que, em São Paulo, o município possui 200 vans adaptadas que oferecem o transporte gratuitamente, além da frota de táxis também com veículos adaptados.

Fonte: Tribuna da Bahia


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