“Colocaram a arma na mão dele”, diz amigo de rapaz morto no Nordeste de Amaralina

Filho de mestre de capoeira, rapaz de 21 anos, é morto por policiais na mesma rua do Nordeste em que seu primo Joel, de 10 anos, foi vítima de uma ação policial em 2010

Mesma rua, mesma família, mesmo roteiro: a polícia realiza uma operação que termina com a morte de um morador do Nordeste de Amaralina. Ontem, quem morreu foi Carlos Alberto Júnior, 21 anos, que, segundo a PM, reagiu a uma abordagem policial. Ele era primo de Joel da Conceição Castro, morto aos 10 anos em 2010, quando foi baleado durante incursão policial.

As duas vítimas eram filhos de mestres de capoeira. A coincidência levou moradores do Nordeste a bloquear o trecho entre a Avenida Manoel Dias da Silva e a Rua Visconde de Itaborahy por três vezes – duas durante a tarde e uma na noite de ontem. Eles incendiaram pedaços de madeira, sofás e pneus e chegaram a tocar fogo num ônibus. 

Segundo os manifestantes, Júnior foi executado por policiais da 40ª CIPM. A PM confirmou que o jovem não tinha antecedentes criminais. Segundo familiares, ele trabalhava no Gran Hotel da Barra. A morte foi registrada como Auto de Resistência na Corregedoria da corporação e não na delegacia do Nordeste.

Segundo a PM, policiais da Base Comunitária de Segurança do Nordeste realizavam uma ronda na localidade de Olaria e foram recebidos a tiros. No suposto tiroteio, Júnior foi atingido. Os policiais afirmam que apreenderam com ele um revólver calibre 38 e pedras de crack. Já em um terreno próximo, a PM apreendeu um revólver 32.

Um primo de Júnior disse que os dois estavam indo jogar bola. “Ele disse pra eu adiantar porque resolveu parar em um bar”, contou o rapaz. Ele afirma que no trajeto foi abordado por quatro PMs, que teriam lhe mandado correr. “Disse que não ia correr porque sou trabalhador e fui imobilizado”, contou o rapaz, que diz ter ouvido três tiros neste momento. Depois, soube que Júnior havia sido baleado por outro grupo de policiais.

Dois amigos de Júnior afirmam que testemunharam sua morte. “Ele tinha saído do bar quando foi cercado por quatro PMs. Eles chegaram atirando”, disse um deles. “Depois, colocaram a arma na mão dele. Todo mundo viu”, disse o outro amigo da vítima.

O pai de Júnior, Mestre Bozó Preto, estava desesperado. “Quero justiça. Eles estão acostumados a fazer isso”, bradou o capoeirista, lembrando da morte do sobrinho Joel, filho do Mestre Ninha. “Foi meu filho e agora meu sobrinho. Quando é que isso vai parar?”, questionou Ninha.  

Durante a tarde, um dos policiais que acompanhavam o protesto atirou para o alto para conter um grupo que se juntou em torno de PMs que abordavam alguns jovens. Ninguém ficou ferido. Devido aos três protestos, o trânsito na região ficou engarrafado durante boa parte do dia.

Caso Joel: policiais aguardam julgamento por homicídio de garoto
Atualmente, os policiais envolvidos na morte do garoto Joel, em 2010, respondem em liberdade a processo judicial, segundo assessoria da PM, que afirmou que todos estão afastados. Nove policiais foram denunciados pelo Ministério Público como autores do crime, incluindo o tenente Alexinaldo Santos Souza, que comandou a operação, e Eraldo Menezes de Souza, autor do tiro que atingiu a criança. 

Além deles, foram indiciados Leonardo Passos Cerqueira, Robson dos Santos Neves, Paulo José Oliveira Andrade, Nilton César dos Reis Santana, Luís Carlos Ribeiro Santana, Juarez Batista de Carvalho e Maurício dos Santos Santana. Joel foi morto durante uma operação no Nordeste de Amaralina. Na ocasião, o menino estava dentro de casa e se preparava para dormir, quando foi baleado.

Fonte: Correio da Bahia

Imagem: Ilustração

 

 


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