Coluna ValoRH: A educação no Brasil precisa de mais dinheiro?

“Será que alocar mais recursos, ou simplesmente jogar mais dinheiro no sistema educacional detonaria uma mudança real e imediata?”, analisa especialista

Em meio à onda de protestos que clamava, entre outras demandas, por escolas “padrão FIFA”, ocorria a divulgação de uma série de dados a respeito de gastos com educação no Brasil. Em meio aos clamores populares, recrudesceu mais uma vez o interesse pela melhoria da qualidade da educação no Brasil, reclamando-se mais uma vez o aumento de recursos destinados à educação.

O exercício, raramente feito, de analisar com cautela os números talvez permitisse nortear com maior eficácia o planejamento e definição de ações acerca das soluções para a melhoria do nosso sistema educacional, para não ficarmos apenas no clamor das ruas, que nos faz acreditar, à primeira vista, que a solução para tudo ou quase tudo é alocar mais e mais recursos. Por mais contraditório que pareça, nem sempre isto é verdade, e pode até ser nefasto.

Enfocando especificamente a questão da educação, seria muito mais prudente e eficaz, antes de se pensar em alocar  mais recursos,  abrir a caixa preta do sistema. Será que alocar mais recursos, ou simplesmente jogar mais dinheiro no sistema educacional detonaria uma mudança real e imediata? Se olharmos para a alocação atual de recursos, é pouco provável que uma melhoria significativa seja observada no curto prazo simplesmente dobrando ou triplicando os recursos aplicados. Mas, antes de mais uma vez adentrarmos o terreno do “achismo” e da “que-querência” que domina o debate atual, não faria mal nos atentarmos aos números.

Dados recentes da Unesco mostram que o Brasil gasta com educação o mesmo percentual de países desenvolvidos, os chamados integrantes da OCDE, como Estados Unidos ou mesmo países mais próximos do nosso, como o Chile. Gastamos algo como 5,3% do PIB em educação. Muitos acham pouco, muito pouco. E novamente, perguntamos, será?

Vejamos o país modelo e queridinho dos especialistas, a Coréia do Sul. Pois bem, se analisarmos os gastos da Coréia do Sul com educação, desde a década de 70, veremos que nos anos 70, quando a Coréia era um país incipiente, os gastos com educação oscilavam entre 1,62 e 2,38% do PIB. Na década de 80, atingiu um pico de 5,65%, para depois oscilar novamente em  algo como 3/3.5%, quando a Coréia ainda era relativamente atrasada. Nos anos mais recentes, de 2000 para cá, a Coréia tem gasto em torno de 4.2% do PIB em educação, menos que o Brasil. 

Existem vários outros exemplos que contrariam a tese do aumento massivo de recursos, mas um caso interno também exemplifica o que procuramos instigar. A cidade de Sobral que tem um gasto de R$ 3.100,00 por aluno, obteve um desempenho na prova Brasil superior ao da cidade de São Paulo, que gasta em média R$ 6.000,00 por aluno. Neste caso, parece que ser um aluno da rede pública no RN, garante um desempenho escolar superior à média dos alunos de São Paulo, a cidade mais rica do país, e que pode contar com o dobro dos recursos.

Para piorar um pouco a situação, o governo brasileiro gasta com o ensino superior 4 vezes mais por aluno do que no ensino fundamental e se dá ao luxo de enviar 100.000 estudantes para estudar no exterior, pasmem, na fase de graduação, quando ainda não se completaram a aquisição dos fundamentos próprios da graduação. Um contrassenso se pensarmos que nossas deficiências concentram-se no ensino fundamental e que a tecnologia em alto nível se dissemina na pós-graduação. Os mimos destinados aos estudantes universitários brasileiros poderia ser  explicado pelo simples fato de que crianças de 7 ou 8 anos não votam?

Mandamos estudantes de gradução em massa para o estrangeiro, mas não nos preocupamos muito em trazer professores ultracapacitados para o Brasil,  o que traria um efeito multiplicador muito superior, além de ser muito mais barato. Por outro lado, não vemos tanto empenho em enviar estudantes em nível de pós-gradução ao exterior,  já bem mais preparados para adqurir conhecimentos mais avançados.

De volta aos grotões, sabemos que é possível obter um ensino de qualidade aceitável, no ensino fundamental, em localidades ditas remotas, mesmo contando com menos recursos financeiros. O que estes números e exemplos parecem querer mostrar é que existem muitos outros fatores que influenciam no desempenho dos alunos.

Como qualquer pai mais empenhado e comprometido sabe, o desempenho dos seus filhos, sobretudo daqueles que apresentam um grau de dificuldade de aprendizado maior, está diretamente relacionado ao grau de instrução dos pais e,  sobretudo, do comprometimento dos pais com o aprendizado dos filhos. Este desempenho, sobretudo no ensino fundamental, é ainda mais potencializado quando os pais se reúnem e cobram ações da escola e procuram se ajudar, aquilo que chamamos de espírito comunitário.

Em comunidades desagregadas, onde a violência impera, e os pais imaginam que a tarefa de educar seus filhos é apenas do Estado, e que a “tal sociedade” lhe deve o ensino “padrão FIFA”, o caminho para o fracasso já estará trilhado. Mesmo no caso de lares abastados, quando ocorre algum tipo de dificuldade e os pais não se envolvem profundamente, pretendendo “terceirizar” a solução dos seus problemas, o resultado será o fracasso, independente da escola onde a criança estude, de sua classe social e da estrutura da escola. 

De volta à Coréia, aqui começamos a ver uma diferença entre o brasileiro e os asiáticos em geral. Os pais asiáticos são imbuídos da sacrossanta missão de atuar firmemente para que os filhos tenham sucesso na escola. Esta é uma diferença cultural fundamental, que pode ajudar a explicar a diferença de desempenho entre Coréia e Brasil, e que mereceriam um longo estudo.

Por outro lado, dada a enormidade da tarefa, parece haver a convicção entre os governantes de que as falhas de nosso sistema de ensino podem ser sanadas dentro da Universidade. De fato, para aqueles poucos – porque os há, que conseguirem alcançar algum grau de proficiência na educação pública, as coisas poderão se resolver dentro da Universidade. O problema é que haverá sempre uma legião de alunos que não conseguirão alcançar proficiência minimamente aceitável em leitura e matemática, o que, para estes,  tornará qualquer curso superior um mero ritual de chancelamento formal da falta de capacitação adequada.

Neste momento em que tanto se discute a inversão de maiores recursos para a educação, seria tão ou mais importante radiografar, analisar e entender os casos de sucesso e fracasso a fim de traçar um plano exequível, antes mesmo de alocar maiores recursos, apenas para atender uma demanda por um número mágico de 10%, mais apropriado como tema de campanha do que necessidade efetiva. O mais importante é identificar e reproduzir modelos que sejam efetivos. Por outro lado, devemos voltar a discutir se é de fato justo gastarmos tanto dinheiro com alunos do ciclo universitário, sobretudo aqueles que têm condições de pagar, e que contrapartidas estes mesmos estudantes deveriam dar para a melhoria do sistema educacional na sua base, provavelmente participando dele presencialmente.

Por fim, o que vemos mais crescer ao redor do mundo é o reforço educacional, como programas de tutoria, que objetivam consertar os buracos de conhecimento adquiridos ao longo do ensino fundamental e que acabam por se tornar crônicos no ensino de nível médio. 

Para resolver os problemas de educação neste país, portanto, o dinheiro é fundamental, é verdade. Mas é mais fundamental ainda o envolvimento dos pais e da comunidade. É mais do que uma questão de sacrificar o lazer pelo acompanhamento. E, para quem duvida disto, tente se lembrar daqueles colegas que, mesmo ricos, que tiveram tudo do bom e do melhor, acabaram se desencaminhando. São filhos de pais que acreditam que com dinheiro, somente, se educa.

 

Fonte: iBahia


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