Curso preparatório para o Enem reúne transexuais e travestis no Rio

‘Prepara, Nem’ funciona em locais emprestados e sofre com falta de verba.
Alunos sonham em romper com estereótipos associados a eles.

Uma iniciativa de um grupo de amigos no Rio de Janeiro tem ajudado travestis e transexuais a melhorar sua formação e a tentar uma vaga no Ensino Superior. A ideia do curso gratuito ‘Prepara, Nem’, cujo objetivo é melhorar de vida por meio da educação, partiu dos amigos Indianara Siqueira, Gisele Andrade, que são travestis, e Thiago Bassi.

“Eu estava com a Indianara lá em casa e ela deu a ideia de fazer um preparatório para o Enem para este público. E aí surgiu o nome de ‘Prepara, Nem’. A gente jogou nas redes sociais e teve uma aceitação muito grande de pessoas interessadas em ajudar o projeto, vendo que a sociedade civil se mobilizou para que isso acontecesse. Temos aqui várias pessoas que se cedem o seu tempo”, conta Thiago.

Na última sexta-feira (24), o G1 acompanhou uma aula do curso que aconteceu em uma sala da ONG Pela Vidda, que defende os direitos dos portadores do vírus HIV, no Centro do Rio. Tratava-se de uma reunião especial para discutir atualidades. Em uma roda de conversa, os estudantes relacionavam suas experiências com os acontecimentos do país e do mundo.

Thiago Bassi, um dos organizadores do curso, ao lado de Tyfany Silva, uma das alunas do 'Prepara, Nem' (Foto: Cristina Boeckel/ G1)

Ambiente favorável
O curso conta com 25 inscritos, mas a assiduidade é maior entre 16 estudantes. Dois são homens transexuais, 13 são mulheres transexuais ou travestis. Além deles também há uma mulher entre os estudantes. Para Tyfany da Silva, estar em uma aula com pessoas que passam por experiências semelhantes a deixa mais à vontade para expor suas experiências de vida.

“Se estivéssemos em uma aula de alunos comuns, a gente seria motivo de chacota, teria rixas, iriam arrumar atritos por nada. Tem gente que não aceita e quer fazer gracinha. Tem sempre aquele aluno da sala que quer aparecer. Fala: ‘Olha o traveco, a boneca’. Tem sempre aquelas coisas né? Nem todo mundo aceita, nem todo mundo respeita”, conta Tyfany.

A aluna planeja prestar vestibular para o curso de Química Industrial. Cabeleireira e maquiadora há 14 anos, acredita que os conhecimentos que adquire em sala de aula a ajudarão a expandir seus horizontes no mercado da beleza. Ela também acredita que o estudo é uma maneira de acabar com os estereótipos que pairam sobre as travestis e mulheres transexuais.

“O preconceito é muito grande. Somos uma minoria para brigar com muita gente por uma vaga de emprego. Quem vai dar uma vaga de emprego para uma travesti? Quem vai querer uma travesti na sua empresa? Não é verdade? Aqui no Rio acham que é cabeleireira, mãe de santo ou prostituta”, conta a jovem de 31 anos, que foi expulsa de casa aos 11 anos pela família, em Brasília, sua cidade natal, porque não aceitavam sua sexualidade.

O dia em que o G1 acompanhou a aula foi o primeiro dia no curso de Luiza Ferreira, de 20 anos. Nascida na cidade de Três Pontas, em Minas Gerais, e há mais de dois anos no Rio de Janeiro, ela busca no curso preparação para passar para Medicina. Atualmente, Luiza já estuda no Ensino Superior, onde faz Farmácia. Porém, seu sonho na medicina é ajudar pessoas como ela.

Luiza Ferreira estuda Farmácia, mas sonha com uma vaga no curso de Medicina. (Foto: Cristina Boeckel/ G1)

“Eu já quis fazer dermatologia. Hoje em dia, eu penso em fazer endocrinologia, pois está relacionado com transição hormonal. Porque hoje em dia, muitas trans começam a se automedicar com substâncias que elas nem sabem os riscos que podem trazer para a vida. No mercado há vários endócrinos, mas nem todo lugar você encontra um específico para transição hormonal em uma pessoa trans. Eu pretendo me dedicar a essa área para ajudar pessoas como eu”, conta a mineira.

Luiza acredita que, acima do preparo para o vestibular, o Enem e outras formas de acesso ao Ensino Superior, ela vai encontrar no curso uma forma de relacionamento que respeita as diferenças: “Se você for em um curso no qual a maioria das pessoas são cisgêneras [pessoas que se identificam com o gênero que nasceram], nós transexuais não nos sentimos tão à vontade. Porque, querendo ou não, há um certo preconceito. Eu, particularmente, não me sentiria tão à vontade. Em um grupo de pessoas iguais a mim, vivendo a mesma situação que eu, me sinto mais à vontade, já tenho com quem conversar, compartilhar informações. Tudo flui, digamos assim”.

Talassa Fonseca conheceu o Prepara, Nem por meio do Facebook. Atualmente é professora voluntária de história (Foto: Cristina Boeckel/ G1)

Professores voluntários
O ‘Prepara, Nem’ trabalha com professores voluntários que cedem seu tempo à noite para ajudar os estudantes. Uma destas voluntárias é Talassa Fonseca, de 23 anos, que dá aula de história com outras três professoras. Ela, que dá aula em uma escola em Campo Grande, Zona Oeste do Rio, durante o dia, conta que as professoras se reúnem e decidem qual será o conteúdo didático e como será dividido entre elas. Muitas vezes, o conteúdo de história se entrelaça com o de outras disciplinas. Mas isso não é um problema. Muito pelo contrário. Ajuda a integrar todo o conteúdo, da mesma forma que é a proposta do Enem. “Nós separamos o assunto pelos conteúdos que mais caem no Enem. Mas debatemos, muitas vezes, assuntos que não estão nos livros”.

Talassa acredita que seu trabalho é um pequeno passo na luta contra a transfobia e que está ajudando seus alunos a ocupar espaço na sociedade. “Eles pegam o conteúdo rápido e ainda trazem a sua vivência para as aulas, o que ajuda muito”.

Sem ajuda
O Prepara, Nem não conta com nenhum tipo de ajuda de qualquer órgão público ou esfera de governo. Os locais onde acontecem as aulas são cedidos por ONGs, sindicatos e casas de cultura e acontecem em cada dia em um espaço diferente. A coordenação do curso afirma que o governo tem ciência da iniciativa.

Atualmente, o transporte é a maior dificuldade para garantir a assiduidade dos alunos. “A maior dificuldade é a passagem. Porque muitas meninas deixam de vir ao curso porque não têm o dinheiro do transporte”, conta Thiago Bassi.

A organização do curso tenta contornar o problema de outras maneiras. A ONG Pela Vidda ajuda a financiar uma parte deste valor. Por outro lado, os estudantes tentam ajudar da maneira que podem. Em um evento que aconteceu no começo do mês, no Passeio Público, no Centro, todos se uniram para vender Quentonas (nome feminino que os estudantes deram para o tradicional quentão junino) e quibes veganos. Conseguiram arrecadar R$ 480, mas o valor não custeia o total das passagens para os estudantes e eventuais custos com material.

As dificuldades materiais dos estudantes do curso não os impede de sonhar com voos mais altos. Futuramente, a ideia é oferecer cursos de idiomas, fotografia e programação de sistemas e outras opções profissionais para os alunos. E para os críticos que acham que um curso voltado somente para os transexuais e travestis pode ser uma forma de preconceito, Thiago Bassi afirma que o objetivo é justamente incluir.

“As pessoas falam às vezes que isso é segregar. E isso não é segregar. A sociedade segrega essas pessoas. A gente busca com que elas sejam incluídas. Tem uma aluna que menciona que ela está querendo voltar para a escola há cinco anos e, toda vez que ela tenta voltar, ela sofre preconceito no ambiente escolar. E que ela se sente acolhida no ambiente do Prepara, Nem. A ideia é que a gente tenha a possibilidade de acolher todas as pessoas, respeitando as suas identidades, respeitando a sua dignidade como pessoas. O respeito a identidade é fundamental. O Prepara, Nem é aberto para todas as pessoas, mas o foco é o respeito e a dignidade humana”, conta Thiago.

Tyfany resume os seus desejos com o curso. “O meu objetivo no ‘Prepara, Nem’ é me formar, fazer uma faculdade, ter uma vida normal, ter uma família, ter um cachorro. Passar pelo processo, estudar, lecionar uma matéria. Eu busquei isso para a minha felicidade, entendeu? A minha intenção é essa. Ser feliz, né? Quero ter uma profissão que seja reconhecida, não ser motivo de chacota dentro de uma empresa. Ser reconhecida pelo meu trabalho, pelo meu caráter’.

Tyfany da Silva, que é cabeleireira, sonha em cursar Química Industrial (Foto: Cristina Boeckel/ G1)
Fonte: G1


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