Em protesto, evangélicos chamam casamento gay de “obra do diabo”

Em meio a acalorado discurso durante protesto em Brasília nessa quarta-feira (5/6), o pastor da Igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo Silas Malafaia perguntou à plateia: “O que dois homens e duas mulheres produzem?”. Eufórico em meio a multidão, estimada em 40 mil pessoas pela Polícia Militar, o aposentado Alonzo Mirandola respondeu: “Safadeza! Sem-vergonhice!”

O aposentado viajou 22 horas em ônibus fretado para participar da manifestação pela família em frente ao Congresso Nacional nessa quarta-feira (5/6). Ele contou que de Vitória, onde mora, saíram cerca de 30 ônibus lotados de fiéis para “defender” a família contra o que considera “obra do diabo”.

Nessa obra, segundo Alonzo, estão os projetos de lei que reconhecem o “casamento de dois machos e duas mulheres”. “O diabo chegou aqui em Brasília e implantou o reino dele. Querem tirar o valor da família. Como eles, os gays, não têm as famílias deles, querem tirar a nossa”, protestou. “O que alguns políticos e a imprensa querem é empurrar na nossa garganta a ideia de que dois homens e duas mulheres formam uma família e isso nós não aceitamos”.

A organização da manifestação chegou a anunciar 100 mil participantes. A “manifestação pacífica” foi convocada por Malafaia, “em defesa da liberdade de expressão, liberdade religiosa, da família tradicional e da vida”. O objetivo era marcar posição contra o casamento gay, o aborto e o Projeto de Lei 122, que criminaliza a homofobia.

Malafaia, o grande anfitrião do evento argumentava contrário ao casamento gay. “Vamos arrumar uma ilha deserta e mandar dois gays para lá. Quero ver se depois que passarem os anos haverá raça humana”, disse o pastor em meio a mais de 50 políticos e pastores.

Em alguns momentos, a manifestação se parecia mais com um comício. O senador Magno Malta (PR-ES) chegou a provocar o público dizendo que forças contrárias aos evangélicos queriam impedir a eleição de representantes religiosos nas próximas eleições. “Não querem deixar a gente votar”, disse o senador. A plateia respondeu em coro: “A gente vota, a gente vota”.

Em silêncio, a família formada pelo pastor batista Valdir Contaifer, sua mulher, Morgana, e a filha Sarah, de 17 anos, empunhavam um cartaz em defesa da “liberdade de se proclamar o que se crê”. Para Morgana a proposta que criminaliza a homofobia, em discussão no Congresso, é desnecessária.

“O respeito tem que existir em qualquer situação”. Ela argumentou que a igreja deve ter o direito de condenar a “prática do homossexualismo”, mas não acredita que esse discurso seja capaz de gerar violência contra gays. “Nós temos que amar os gays. O que a gente prega é o respeito”, declarou. “Nenhuma liberdade que gere violência pode ser considerada liberdade”, argumentou.

Quanto aos políticos, Morgana é mais cética. “A gente veio aqui pelo que eles falam em relação à família. Mas achar que eles são exemplo de ética é bem diferente”, declarou. “Viemos comer o peixe e jogar fora as espinhas”, argumentou Morgana.

Seu marido repetiu o principal argumento utilizado pelos evangélicos para justificar que tem sentido o racismo ser considerado crime no Brasil e a homofobia não. “Eu sou negro, mas eu não escolhi ser negro. Já o homossexual escolheu essa prática”.

Já o casal de vigilantes Lissandra Silva e Jean Carlos Almeida fez questão de demonstrar sua união ao posarem para fotos em frente a uma bandeira improvisada com a inscrição “família tradicional”. “Somos vigilantes, vigilantes da família”, declarou Lissandra que se disse contrária à união civil entre pessoas do mesmo sexo.

“O que nos trouxe aqui é que a gente acredita na família. O que mais temo é pelos meus filhos. Eles não podem viver sem os valores da família”, disse a vigilante que faz parte da Igreja Evangélica Petencostal Missionária Ebenezer, de Sobradinho II, na periferia de Brasília.

Fonte: Tribuna da Bahia


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