Gravações mostram como era relação entre pai e madrasta de Bernardo

Obtido com exclusividade pelo Fantástico, o vídeo mostra um casal apaixonado. Especialistas analisam relacionamento entre Bernardo e o pai.

Esta semana, surgiram novos vídeos da família do menino Bernardo, que foi morto em abril, no interior do Rio Grande do Sul.

São imagens que o próprio pai da criança gravou, e depois apagou do telefone –mas que a perícia conseguiu recuperar.

Obtido com exclusividade pelo Fantástico, o vídeo mostra um casal apaixonado. Estava no celular de Leandro Boldrini, o pai de Bernardo.

Treze dias depois da gravação, o menino foi morto. Segundo as investigações, com uma injeção letal.

A polícia diz que, com a mulher Graciele, Leandro era carinhoso.

Já com o filho: “Vamos ver se tu é corajoso. Vamos, machão. Baixa essa faca, rapaz”, diz em uma gravação.

“Não abaixo”, responde Bernardo.

Esta gravação, em que Leandro provoca várias vezes a criança, é de junho de 2013.

Leandro: Baixa esse facão, rapaz.
Bernardo: Não.
Bernardo: Então, para o vídeo. Senão, não vou parar.
Leandro: Eu mando em você. Eu mando. Baixa isso aí.

Leandro e Graciele estão presos, acusados pela morte do menino de 11 anos, no interior gaúcho. A data do julgamento ainda não foi marcada. Na terça-feira (26), testemunhas começaram a ser ouvidas pela Justiça.

Foi quando novos vídeos sobre o caso começaram a aparecer. O pai de Bernardo tinha apagado as gravações do celular, mas a perícia conseguiu recuperá-las.

Em alguns trechos, só existe áudio. “Socorro. Meu pai me agrediu. Socorro.”, grita o menino.

A polícia acredita que Leandro e Graciele fizeram as filmagens com a intenção de mostrar para a Justiça que Bernardo tinha um comportamento agressivo.

Seria uma forma de se defender, já que nos vídeos, o menino fala várias vezes que vai denunciar o casal.

Graciele: Quer o telefone emprestado para denunciar?
Bernardo: Sim.
Graciele: Ah…
Bernardo: Empresta. Empresta.
Graciele: Quer denunciar, se vira. Não empresto. Te vira.

Mas, para a acusação, os vídeos acabaram incriminando os dois.

“Os gritos do Bernardo demonstram como ele era tratado dentro de casa. Tratado com ódio”, afirma Marlon Taborda, advogado da avó materna de Bernardo.

Bernardo: Queria que tu morresse.
Graciele: Então, nós vamos ver quem vai para debaixo da terra primeiro.

Esta gravação de áudio, entre a madrasta e Bernardo, é de agosto de 2013. No mesmo dia, foi feito um vídeo, divulgado pelo jornal “Zero Hora”.

O pai filma Bernardo dentro de um armário, chorando. “Sai. Para de me filmar. Seu idiota.”, diz o menino.

Em janeiro de 2014, Bernardo denunciou o que passava. Se queixou ao Centro de Defesa da Criança e o pedido dele de não morar mais com o pai e com a madrasta chegou ao Ministério Público. O casal tem uma filha de 1 ano.

Leandro prometeu dar mais atenção e carinho para o filho e a Justiça suspendeu o processo. Três meses se passaram até o menino ser morto.

Ao ser presa, Graciele disse à polícia que não aplicou injeção em Bernardo, que exagerou na dose de calmantes que deu ao enteado e que não tinha intenção de matá-lo. “Eu nunca quis fazer isso”, afirmou ela na época.

O Fantástico pediu a dois professores titulares de psiquiatria que analisassem as gravações.

“É uma situação de estresse máximo, onde nós temos uma criança acuada, que está em franco desespero, desamparo”, avalia Jair Mari, professor do departamento de psiquiatria da UNIFESP.

Quanto ao pai de Bernardo: “Nós estamos observando tudo aquilo que não deve ser feito. Estimulando a humilhação e não o acolhimento, que seria em falar: ‘se acalma. O papai está aqui. O papai ama você’”, explica Jair Mari.

“É importante em situações que a criança está descontrolada poder abraçá-la, poder contê-la, poder mostrar que alguém que a ajude a se controlar”, destaca Luís Augusto Rohde, professor do Departamento de Psiquiatria da UFRGS.

Com a divulgação das gravações de agosto de 2013, Leandro e Graciele podem ser investigados agora por envolvimento em outra morte.

A polícia concluiu que a mãe de Bernardo, a enfermeira Odilaine Uglione, se suicidou no dia 10 de fevereiro de 2010. Mas a família nunca aceitou isso.

Na gravação, Bernardo discute com o pai e com a madrasta quando eles falam sobre Odilaine.

Leandro: Eu sei que tua mãe é o máximo para ti. Mas simplesmente, ela te abandonou.
Bernardo: Ela não me abandonou. Tomara que tu morra! E essa coisa que morra junto!
Leandro: Tu vai ir antes. Doente do jeito que tu tá desse jeito. Teu fim vai ser igual ao da tua mãe.

Para o advogado da avó materna de Bernardo, Graciele dá a entender que Odilaine foi assassinada. “Houve uma confissão da morte da Odilaine, que o Bernardo vai ter o mesmo fim que a mãe”, afirma Marlon.

Quando já estava preso, acusado de ser o mandante da morte do filho, o médico Leandro Boldrini falou sobre a morte de Odilaine. Disse que tudo aconteceu dentro da clínica dele, em Três Passos: “Ela sacou a arma de dentro da bolsa com a mão direita, ela olhou para mim e apontou a arma nos meus olhos. Aí, eu pensei: ‘Pá, morri’”.

Em uma gravação exclusiva, Leandro alegou que não viu o que se passou depois: “Procurei me abaixar e aí saí pelo lugar onde eu tinha entrado e realmente escutei o estampido”.

Segundo as investigações da época, Odilaine se suicidou com um tiro. A polícia não informou se vai reabrir o caso.

No sábado (30), o advogado de Leandro Boldrini alegou divergências com seu cliente e deixou o caso. Um novo advogado deve ser apresentado nesta segunda-feira (1º).

Leandro sempre negou as acusações. Diz que nunca planejou a morte do filho. O advogado de Graciele não quis gravar entrevista.

Dona Jussara é mãe de Odilaine Uglione. Ela visita com frequência o túmulo onde a filha e o neto estão enterrados. “É um pesadelo. A coisa que eu mais quero nessa vida hoje é justiça”, diz.

Fonte: G1 / Fantástico


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