Greve da Ufba não acaba e chega a 125 dias

Professores da instituição decidiram em assembleia manter greve que já dura 125 dias

Após 125 dias de greve, completados hoje, os professores da Ufba-Universidade Federal da Bahia decidiram, ontem, em assembleia na Faculdade de Arquitetura, pela continuidade da paralisação. A decisão foi aprovada por 193 votos e cinco abstenções, contra 94 que defendiam o final do movimento e o retorno à sala de aula. De todo modo, foi aprovado também, por 164 votos contra 113 e oito abstenções, o indicativo de saída unificada da greve, a depender de posicionamento do comando nacional, entre os dias 6 e 9 de outubro.

Embora concorrida, com 330 participantes, a assembleia dos docentes foi composta por pouco mais de 10% dos filiados à Apub-Sindicato dos Professores das Instituições de Ensino Superior do Estado da Bahia, que somam 2.855 professores. Uma nova assembleia ficou deliberada para o próximo dia 6 de outubro, um dia após o encontro agendado entre o comando nacional da greve e o ministro da Educação, Renato Janine Ribeiro, em Brasília. Após o encerramento do movimento será despendido, ainda, o período de uma semana para reelaboração do novo calendário de aulas.

Na Bahia, a paralisação levou a posicionamentos divergentes entre a diretoria da Apub e o comando local da greve. O professor de História, Carlos Zacarias, foi uma das vozes a acusar a direção da entidade de “prestar desserviço à categoria ao defender o final da luta, contra posicionamento da maioria”. Segundo ele, “a Apub preferiu se confrontar com o comando da greve, do qual fazia parte, adotando postura de isolamento, optando por atuar sozinha”. A presidente da entidade, Cláudia Miranda, disse que “por trás dos posicionamentos favoráveis à continuidade da greve estão interesses políticos pelo tomada da direção da Apub”.

Dentre os que discursaram, fazendo avaliações do movimento e da “difícil conjuntura nacional”, a maioria defendeu o final da greve “de modo unificado com as demais universidades federais (também paralisadas, à exceção da UFF-Universidade Federal Fluminense), e sob orientação do comando nacional”. Em todos os pronunciamentos o governo federal foi apontado como “intolerante”; de “promover o desmantelamento dos direitos dos trabalhadores e dos servidores públicos”, em particular.

A deflagração da greve, no caso da Ufba, foi atribuída à “Carta do Reitor” [João Carlos Salles], encaminhada no início do ano letivo à comunidade acadêmica, na qual apontava a grave situação financeira da instituição, “sem recursos sequer para pagar contas de luz e aos terceirizados da instituição”. Após quatro meses de greve, com os salários corroídos ainda mais pela inflação, os professores [e demais servidores federais] obtiveram reajuste de 10,6%, a serem pagos em duas parcelas: a primeira, de 5,6%, em agosto de 2016 e a segunda, de 5%, em janeiro de 2017, ambas já compreendendo perdas inflacionárias, como é fácil presumir diante da débâcle financeira do governo.

Foi demonstrado pelos docentes que o governo “não negociou com a categoria”, apesar da greve, e tem “promovido a pauperização” das instituições de ensino superior do país. Vários mencionaram “sentimento de derrota”, diante da “intransigência adotada pelos ministérios do Planejamento e da Educação”. A professora de Sociologia Graça Durck, questionou a forma com que o governo tem “criminalizado e judicializado a relação com as entidades representativas e movimentos sociais, impondo pesadas multas como método de intimidação”. Ela defendeu que “não seja assinado nenhum acordo” com o Executivo.

Corte no orçamento é contestado

No encontro do próximo dia 5 com o ministro, os docentes, pretendem manter a posição contra o corte de R$ 3 bilhões no orçamento das instituições federais e exigir que Janine Ribeiro se posicione sobre projetos em tramitação na Câmara Federal, como a PEC 395 que institui a cobrança de taxas e o PLC 2177/2015, que versa sobre a contratação de pesquisadores através de organizações sociais, o que implicaria na quebra do regime único no âmbito das universidades públicas. O projeto de lei, todavia, conta com respaldo do STF-Supremo Tribunal Federal, que já admitiu sua constitucionalidade.

Pouco representativo, mas emblemático, um grupo de estudantes também acompanhou a assembleia portando cartazes com inscrições como “Queremos aula”; “1/3 do ano sem aulas” e “Quem são os verdadeiros egoístas?”, reivindicando o retorno às atividades acadêmicas e questionando o fato de a greve, após quatro meses, “não ter atingido os objetivos pretendidos”. Conforme Aline Machado, aluna do Bacharelado Interdisciplinar de Saúde, “a greve dos professores não foi capaz de pressionar o governo”. Ela defendeu a “ocupação da universidade, até como uma forma de não comprometer os próximos semestres letivos”.

Nos últimos 27 anos ocorreram 17 greves na Ufba. A anterior, em 2012, durou 108 dias. Mesmo com todas essas paralisações, as universidades públicas permanecem no topo de qualidade em todos os rankings de ensino. Na mais recente pesquisa, promovida pela Folha de S. Paulo, em 2014, a Universidade Federal da Bahia é a 20ª, em âmbito nacional, atrás das federais de Pernambuco e do Rio Grande do Norte.

Fonte: Tribuna da Bahia


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