Justiça decreta prisão preventiva de indiciados por morte de Bernardo

Pai, madrasta e assistente social estavam em prisão temporária.
Juiz da Comarca de Três Passos também levantou o sigilo do processo.

Graciele Leandro Boldrini casal com filho desaparecimento Bernardo Três Passos RS (Foto: Reprodução/Facebook)O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul decretou na noite desta terça-feira (13) a prisão preventiva dos três indiciados pela Polícia Civil pela morte o menino Bernardo Boldrini, de 11 anos. O pai Leandro Boldrini, a madrasta Graciele Ugulini e a assistente social Edelvania Wirganovicz continuarão presos.

A decisão é do juiz Marcos Luís Agostini, da Comarca de Três Passos, que também levantou o sigilo do processo. Os três estavam em prisão temporária, e o prazo de 30 dias expiraria à meia-noite de quarta-feira (14). Assim, a decisão de Agostini manteve o trio na prisão.

Bernardo foi encontrado morto no dia 14 de abril, enterrado em um matagal em Frederico Westphalen, no norte gaúcho, a cerca de 80 km de Três Passos, onde morava com o pai, a madrasta e a meia-irmã. Ele estava desaparecido desde 4 de abril..

Já Evandro Wirganovicz, irmão da assistente social, cujo carro foi visto próximo ao local onde o corpo foi enterrado um dia antes do assassinato, não foi apontado pela polícia como autor do crime. Ele foi preso temporariamente no último sábado (10) e sua possível participação ainda é investigada.

Graciele Boldrini foi transferida de Três Passos para Ijuí, no RS (Foto: Fabio Almeida/RBS TV)O pedido havia sido feito pela Polícia Civil, e obteve um parecer favorável do Ministério Público. Em seu parecer, a Promotora de Justiça Dinamárcia Maciel numerou três fundamentos: a garantia da ordem pública, a importância para a conveniência da instrução criminal e o risco à aplicação da lei penal.

Conforme o TJ, o MP destacou a conduta “fria, premeditada, atroz e covarde”, dos indiciados ao cometerem o crime, e destacaram que algumas testemunhas mostraram medo de represálias. Além disso, foi abordado o risco de que eles fugissem do país.

A decisão judicial cita diversas provas citadas pela Polícia Civil durante a apresentação do inquérito na tarde desta terça-feira.

Ao sustentar a garantia da ordem pública, o juiz escreveu que o caso “causou uma intranquilidade social nunca vista nesta Comarca e até em nosso estado”. Em relação à conveniência da instrução criminal, Agostini destacou o receito de depoentes ao falar à polícia sobre o fato. “Várias testemunhas inquiridas na fase policial relataram o receio de represálias por parte dos representados, postulando que as declarações permanecessem em sigilo”, afirmou.

Em relação ao risco à aplicação da lei penal, o magistrado lembrou que os suspeitos tem condições financeiras, “por si ou familiares”, de deixar o país, “o que é facilitado pela proximidade desta comarca com a fronteira da República da Argentina”, afirmou.

Policiais encaminham inquérito ao Fórum de Três Passos, RS (Foto: Estêvão Pires/G1)

Receita de anestésico é prova do crime
A investigação apontou que Leandro Boldrini atuou no crime de homicídio e ocultação de cadáver como mentor, juntamente com Graciele. Ele também auxiliou na compra do remédio Midazolam em comprimidos, fornecendo a receita azul. Leandro e Graciele arquitetaram o plano, assim como a história para que tal crime ficasse impune.

Receita de Leandro Boldrini foi usada para compra de remédio (Foto: Fábio Almeida/RBS TV)

A principal prova é o auto da necropsia, a análise toxicológica, que comprova a presença do medicamento Midazolam no corpo do menino. Já as provas documentais, segundo a polícia, comprovam a aquisição de notas fiscais e receituais do remédio, da soda cáustica, além do testemunho da compra das ferramentas. Ao todo, foram colhidos mais de 100 depoimentos, que informam a desarmonia familiar e o descaso do pai e da madrasta com Bernardo.

O inquérito apresenta também interceptações telefônicas indicando acerto entre os autores para que Leandro fosse inocentado, já após a prisão. Outra prova destacada pelas delegadas responsáveis pelo caso é a gravação de um vídeo que mostra as duas suspeitas retornando de Frederico Westphalen, sem Bernardo, e na sequência o descarte de objetos relacionados ao crime.

As qualificadoras do homicídio citadas no indiciamento são: “mediante pagamento ou promessa de recompensa, motivo fútil, meio insidioso, dissimulação e recurso que impossibilitou a defesa da vítima”, conforme a polícia. Eles também responderão por ocultação de cadáver.

O inquérito cita ainda que a dissimulação impossibilitou a defesa da vítima, já que, para convencer Bernardo a acompanhar Graciele, o casal informou que ele buscaria um aquário, com o qual o menino estava muito empolgado. Também consta como qualificadora o meio utilizado para cometer o homicídio, com a aplicação de uma injeção letal, sendo dito para a vítima que era para se “benzer”.

Através de uma coletiva de imprensa em Três Passos, Região Noroeste do Rio Grande do Sul, Caroline Bamberg Machado, delegada titular do inquérito, Cristiane de Moura e Silva Bauss, delegada regional de Três Passos, Guilherme Wondracek, Chefe de Polícia do estado, Mário Wagner, diretor do departamento de polícia do interior, e Marion Volino, delegado da região, apresentaram a conclusão do inquérito que investiga o assassinato. O documento foi finalizado com 11 volumes e mais de duas mil páginas, e levado por agentes da Polícia Civil do município ao Fórum durante a manhã.

Delegada caso Bernardo coletiva (Foto: Reprodução/RBS TV)Além dos documentos, foi entregue também à Justiça a bicicleta de Bernardo e uma caixa com pertences, entre eles uma faca. Durante as investigações, houve suspeita de que o menino estava com o objeto quando desapareceu, no entanto a bicicleta foi encontrada na escola. Com o inquérito em mãos, a Justiça deve dar vistas para o Ministério Público (MP) receber a documentação e, posteriormente, definir se vai oferecer denúncia contra os indiciados.

Por meio da assessoria de imprensa, o MP informou que o órgão deve oferecer denúncias contra os indiciados até sexta-feira (16), antes do prazo legal estabelecido de cinco dias. Na ocasião, a promotora Dinamárcia Maciel vai detalhar o caso em uma entrevista coletiva. O acompanhamento direto da promotora junto à Polícia Civil agilizou os procedimentos da investigação.

Indiciamentos
Leandro Boldrini: atuou no crime de homicídio e ocultação de cadáver como mentor, juntamente com Graciele. Ele também auxiliou na compra do remédio Midazolan em comprimidos, fornecendo a receita azul. Leandro e Graciele arquitetaram o plano, assim como a história para que tal crime ficasse impune.

Graciele Ugulini: mentora e executadora do delito de homicídio, bem como da ocultação do cadáver.

Edelvânia Wirganovicz: executora do delito de homicídio e da ocultação do cadáver.

Público entrevista coletiva Três Passos, RS, Caso Bernardo (Foto: Estêvão Pires/G1)Contradições reafirmam versão de que casal planejou crime, diz polícia

O menino Bernardo Boldrini foi registrado como desaparecido na polícia de Três Passos no domingo, 6 de abril. Segundo a delegada Cristiane de Moura da Silva Bauss, depois de receber o registro do desaparecimento de Bernardo, chamou a atenção da polícia a ida de Graciele para Frederico Westphalen, além de algumas contradições sobre a visita à cidade, colhidas durante os três depoimentos dos, então, suspeitos.

Durante o depoimento, Graciele contou que deu medicamentos a Bernanrdo. “Ela [Graciele] teria dito que havia dado um comprimidinho para que ele [Bernardo] não passasse mal no caminho e que lá [em Frederico Westphalen], eles iriam para uma benzedeira onde ele ia levar um ‘piquezinho'”, contou a delegada Cristiane, durante a coletiva.

Nas investigações, uma amiga de Graciele afirmou à polícia que a enfermeira contou que Leandro e ela queriam matar o menino. Segundo o delegado Volino, a mulher teria começado a planejar o assassinato. “Durante as buscas pelo menino, eles [Leandro e Graciele] tentaram passar uma impressão de harmonia entre o casal e que Bernardo era bem tratado em casa”, apontou Volino.

A delegada Caroline apontou mais indícios que apontam que o casal planejou o assassinato. “Temos uma testemunha que é amiga de Graciele, informando que final de janeiro foi procurada por ela que relatou que ela e Leandro queriam matar Bernardo. Ela teria dito que ele só não matou o menino porque não tinha um poço”, disse Caroline.

“Eles mataram o menino na sexta-feira e disseram que se deram conta somente no domingo. Foram três dias. Como essa amiga referiu a ideia da morte do Bernanrdo, se apavorando com a situação de que o pai queria matar o menino, a Graciele não fez nenhuma proposta para ela. Isso foi há quatro meses”, completou a mulher.

Outra contradição é o depoimento de três testemunhas diferentes que relataram que Leandro disse que Bernardo não havia levado o telefone celular. “Quando Leandro procurou por Bernardo nas casas e efetuou ligações no domingo à noite, ele disse ‘como eu vou achar esse guri se ele não levou o telefone?’, sendo que ele disse em depoimento que ligou para o filho”, concluiu Caroline.

Para a delegada, o casal nunca se mostrou preocupado com o desaparecimento. “Desde o início, Leandro se mostrava sereno e, em todos os momentos, demonstrava estar tranquilo quanto ao desaparecimento de Bernardo. Era essa a impressão que ele nos passava. O casal parecia até satisfeito com o sumiço do menino”, salientou.

Advogado diz que pai de Bernardo é inocente
O indiciamento do cirurgião Leandro Boldrini por participação como “mentor” do assassinato do filho Bernardo, de 11 anos, irritou o advogado do médico, Jader Marques. Logo depois da divulgação do inquérito pela Polícia Civil, Marques disse ter um documento comprovando que seu cliente se surpreendeu ao saber a criança foi morta pela madrasta e “investiu” contra ela, o que, segundo ele, sinaliza a inocência.

O documento referido por Jader é de uma oitiva que, segundo ele, foi realizada no dia 14 de abril, quando o corpo de Bernardo foi encontrado e os três indiciados foram presos. Ele garante que, na ocasião, Leandro não sabia que o filho havia sido assassinado.

A delegada Caroline reconhece que a conversa citada pelo advogado aconteceu, mas nega que ele tenha tentado agredir Graciele. “Quando ela admite que matou, ele não faz nenhum movimento brusco”, declarou. Procurados pelo G1, os advogados de Graciele e Edelvania não se manifestaram.

Bernardo Boldrini Três Passos (Foto: Reprodução/RBSTV)Entenda

Conforme alegou a família, Bernardo teria sido visto pela última vez às 18h do dia 4 de abril, quando ia dormir na casa de um amigo, que ficava a duas quadras de distância da residência da família. No domingo (6), o pai do menino disse que foi até a casa do amigo, mas foi comunicado que o filho não estava lá e nem havia chegado nos dias anteriores.

No início da tarde do dia 4, a madrasta foi multada por excesso de velocidade. A infração foi registrada na ERS-472, em um trecho entre os municípios de Tenente Portela e Palmitinho. Graciele trafegava a 117 km/h e seguia em direção a Frederico Westphalen. O Comando Rodoviário da Brigada Militar (CRBM) disse que ela estava acompanhada do menino.

“O menino estava no banco de trás do carro e não parecia ameaçado ou assustado. Já a mulher estava calma, muito calma, mesmo depois de ser multada”, relatou o sargento Carlos Vanderlei da Veiga, do CRBM. A madrasta informou que ia a Frederico Westphalen comprar um televisor.

O pai registrou o desaparecimento do menino no dia 6, e a polícia começou a investigar o caso. Na segunda-feira (14), o corpo do garoto foi localizado. De acordo com a delegada responsável pela investigação, o menino foi morto por uma injeção letal, o que ainda precisa ser confirmado por perícia. A delegada diz que a polícia tem certeza do envolvimento do pai, da madrasta e da amiga da mulher no sumiço do menino, mas resta esclarecer como se deu a participação de cada um.

Fonte: G1


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