Medidas fiscais impactam no orçamento do brasileiro

Enquanto o governo tenta diminuir as despesas de um lado, o brasileiro também precisa cortar do outro para manter a saúde financeira do orçamento e aguentar o impacto das medidas do ajuste fiscal

Na tentativa de tirar as contas do vermelho, após gastar mais do que arrecadou no ano passado, o governo tem aplicado medidas para reverter o rombo em seu orçamento e a alta inflacionária. Tais medidas são conhecidas como ajuste fiscal pois objetivam produzir a economia necessária para que recursos sejam aplicados no pagamento dos juros da dívida pública.

Tal remédio, porém, tem sabor amargo por provocar o maior contingenciamento de recursos da história, com o bloqueio de R$ 69,9 bilhões em gastos da União em 2015. Fazem parte ainda do esforço fiscal o aumento de juros e impostos que resultam em impactos para trabalhadores e empresas.

Aperto
De acordo com o educador financeiro Edísio Freire, as medidas governamentais acabam se refletindo diretamente na diminuição do poder de compra do consumidor. “Depois de uma política de estímulo ao consumo, as pessoas passaram a comprar mais em função do crédito e não em função da sua própria renda, o que fez aumentar o endividamento. Em paralelo com as medidas de ajuste fiscal, isso acaba diminuindo o poder de compra do cidadão agora”, assegura Freire.

O analista de departamento pessoal Leonardo Miranda viu uma dívida de R$ 500 no cheque especial crescer para quase R$ 2 mil por conta desta facilidade de oferta de crédito, que agora foi superada pela altos juros. “Não consigo resolver por conta das despesas fixas que tenho. A cada mês que passa os juros fazem crescer ainda mais a dívida, que quase triplicou em dois anos”.

Ele até tenta se planejar para resolver, mas no mês seguinte se vê surpreendido por um novo reajuste de algum item do seu orçamento. A solução vai ser esperar por algum benefício, como o 13º salário, para tentar resolver a dívida. “Por mais que a gente economize, sempre fica a sensação que pagamos mais do que ganhamos”, lamenta.

Tesoura afiada
O aumento no custo de vida provocada pela inflação alta e pela queda na renda, já se faz presente na casa da aposentada Cátia Maltez. Para economizar na conta de luz – uma das vilãs da inflação – ela não usa mais ferro de passar roupa. “Eu lavo a roupa e coloco para estender no cabide. Nunca mais liguei o ferro de passar”, diz.

Diminuir o peso da conta de energia tem sido, para ela, um esforço diário. “Desligo tudo: micro-ondas, televisor, computador, o banho é cronometrado e, até para lavar louça, apago a luz da cozinha e aproveito a luminosidade da sala. Economizar energia virou regra dentro de casa”.

A tesoura chegou também no consumo de combustível. “Não uso mais carro no final de semana, lazer só em casa”, afirma. “Faço um roteiro para ir em todos os lugares que preciso em um dia. Só saio de carro, no máximo, quatro vezes por semana e olhe lá”, completa a dona de casa.

Dona Cátia Maltez conta que os gastos domésticos dobraram do ano passado para cá. “As coisas sobem, e o nosso salário permanece estagnado. É uma luta sem glória todos os dias porque ele não acompanha a inflação, muito menos o aumento das despesas”.

Fatores
Para o educador financeiro Ângelo Guerreiro, tanto a energia elétrica quanto o reajuste no valor do combustível – que subiram em função de um reposicionamento na política de preços da Petrobras, no caso dos combustíveis, e para compensar custos da geração de energia por usinas térmicas no caso da conta de luz –  foram as agravantes de maior impacto no conjunto de despesas do brasileiro neste início de ano.

“A energia ganhou uma proporção no orçamento que não era esperada e o impacto dela não chega só na conta, mas também é repassada pelo setor produtivo quando um consumidor adquire determinado produto”, explica.

O mesmo acontece com o combustível: “É um gasto que onerou muito e repercute não só no tanque do carro, mas em toda a cadeia produtiva”.

Deste modo, as famílias perderam suas  reservas financeiras para arcar com o aumento dos preços. “Os reajustes eram para ser gradativos, mas o consumidor está sempre pagando a conta. Se ainda sobrava uma coisinha, hoje deixou de sobrar”, avaliou o especialista em finanças.

Programas
Se diminui os gastos do governo, diminui também os investimentos, como sinaliza o economista José Luiz Pagnussat. “Se a previsão de crescimento cai, a arrecadação também. É um efeito de bola de neve”, analisa.  A queda atingiu, por exemplo,  programas sociais como o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies), que gastou R$ 2,5 bilhões e freou novos contratos por falta de verbas.

Os cortes no Fies fizeram os irmãos Beatriz e Daniel Serrano disputarem quem, em casa, ficaria com o financiamento, mesmo que o pai fosse fiador de um, e a mãe do outro.

Pesou na decisão o curso mais caro, que era o de Beatriz, estudante de Arquitetura. Sem o financiamento, pagaria mensalidade de R$ 1,5 mil. “Isso nunca havia acontecido em outros aditamentos. Fiquei com muito receio de não conseguir”, fala Beatriz.

Daniel, que cursa jornalismo, até tentou contratar o Fies pela primeira vez, mas acabou abrindo mão do empréstimo para que a irmã conseguisse a aprovação do aditamento. “Os dois não foram autorizados. Ficou bem confuso, o sistema  caia toda hora e a gente não conseguia concluir o processo”, lembra ele.

O esforço vai ser ainda maior para que os dois possam seguir na faculdade. “Eu consegui o Fies e ele também vai continuar estudando, mas a gente sabe que vai ser na base do aperto”, completa Beatriz.

Setor produtivo busca saídas para reduzir efeitosDiante do momento de crise, o setor produtivo tem buscado alternativas  com a racionalização das atividades para atravessar o período econômico conturbado e reverter os efeitos do ajuste fiscal que encarecem a produção com a alta de impostos e o desaquecimento da economia.

Para o presidente da Federação das Indústrias do Estado da Bahia (Fieb), Antonio Ricardo Alban, o governo precisa balancear o peso das medidas, que acabam impactando tanto nas finanças das empresas quanto no bolso do consumidor.

“A indústria entende a necessidade de o Governo Federal ajustar suas contas. No entanto, tem cobrado que esse ajuste não se dê sobrecarregando o setor produtivo nacional”, afirma. Alban assegura que o setor tem feito esforços e buscado soluções para diminuir o efeito das medidas. “Temos feito um empenho constante pelo aumento da produtividade, de modo a atravessar esse período conturbado”, completa.

O comércio varejista também vive dias amargos com o reflexo da crise e do pacote de ajuste fiscal, como afirma o presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado da Bahia (Fecomércio-Ba), Carlos Andrade.

“Os empresários estão todos com as mãos na cabeça. A gente também tem cortado onde pode para ajustar as contas e evitar prejuízos. Mas está muito difícil”. Segundo ele, o ajuste tem diminuído a competitividade das empresas. “Se a crise já havia nos tornado menos competitivos, vamos ficar menos ainda com todos estes ajustes que acabam onerando os nossos custos”.

Alban também é enfático com relação aos reflexos negativos, sobretudo no que diz respeito à redução do nível de consumo e à elevação das taxas de juros. “Com a redução da demanda, as empresas precisam ajustar a produção de acordo com essa nova realidade. Em alguns casos, infelizmente, é necessário até mesmo reduzir o quadro de colaboradores”.

Curso de educação financeira chega a capital baianaAcontece no dia 16 de junho, em Salvador, o curso Gestão de Finanças – Pessoal e Empresarial, ministrado pelo economista e consultor financeiro Edísio Freire. Segundo o especialista, o curso irá apresentar conceitos práticos de educação financeira, tanto para quem precisa de um auxílio para organizar as finanças pessoais, como para pequenos empresários que necessitam de ferramentas para criação de um planejamento financeiro de seus negócios.

“Hoje, o fato de ter uma atenção mais cuidadosa com relação aos gastos pessoais é fator determinante para buscar os melhores caminhos para controlar as despesas, investir e fazer uma boa reserva”, assegura.

As inscrições podem ser feitas pelo site edisiofreire.com.br e custam R$ 80,00, mais a doação de um quilo de alimento não perecível. Os dez primeiros inscritos ganharão o livro Finanças Pessoais para Todas as Idades, um guia prático, lançado pela editora Atlas.

Fonte: Correio da Bahia


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