Motorista é o profissional que mais sofre no dia a dia em Salvador

O resultado da pesquisa foi constatado no Relatório Epidemiológico de Exames Médicos do Sistema Inteligente de Gestão Ocupacional

Encarar o trânsito de Salvador todos os dias não é tarefa das mais fáceis, principalmente quando a ocupação profissional envolve estar nele durante todo o dia. A constatação pode ser tomada através de um estudo divulgado na última quarta-feira, 13, pelo Grupo SH – Brasil – Sistema Integrado de Saúde. O estudo constatou que os motoristas profissionais – seja este de ônibus, táxi, transporte de carga, ou particulares – concentram 10,8% dos casos de obesidade mórbida, entre as mais de 300 profissões registradas. Quando se fala em hipertensão, eles representam 8,4% dos afetados, mas, se considerar o diagnóstico de diabetes, o montante sobe para 10,2%.

O resultado da pesquisa foi constatado no Relatório Epidemiológico de Exames Médicos do Sistema Inteligente de Gestão Ocupacional (Sigo), divulgado pelo Grupo SH, e foi coordenado pelo consultor em saúde ocupacional, Dr. Raimundo Pinheiro, após levantar 35.273 exames periódicos com funcionários de empresas privadas da capital e da região metropolitana, no ano de 2014. A mostra inclui 300 ocupações diferentes, preenchidas por profissionais entre os 18 e 65 anos, distribuídos em aproximadamente 600 empresas em que o grupo presta atendimento.

O montante impressiona ao ser colocado ao lado de outras profissões. Em casos de obesidade mórbida, o segundo e terceiro lugar ficam com os vigias (6,3%) e auxiliares administrativos (6%), enquanto que as demais profissões concentram menos de 4%.  A avaliação do paciente inclui exames clínicos e de glicemia. Entre os condutores profissionais, constatou-se também que, em 75% dos casos havia descompensação das deficiências, indicando um risco maior para o motorista. Se a pessoa sofre com os três problemas de saúde ao mesmo tempo, já são candidatos à morte súbita.

“A grosso modo, é possível dizer que é como uma bomba trafegando no meio da rua”, explicou o médico apontando para o risco de derrames e paradas cardiorrespiratórias, principalmente enquanto o motorista está trabalhando. Se pensar que estes motoristas são responsáveis por transportar vidas, ou cargas perigosas, o risco de fatalidades no trânsito é ainda maior.

Na pesquisa também foi constatado que 55% dos motoristas que apresentam problemas de saúde têm menos de 40 anos de idade, enquanto que 12% têm menos de 30. “Ao falarmos que uma pessoa com menos de 30 anos já está sofrendo com doenças como hipertensão, diabetes, ou obesidade mórbida, e não está tratando os problemas, já é possível constatar que esta pessoa terá complicações na saúde e uma expectativa menor de vida”, avalia o consultor do Grupo SH.

Os números, de acordo com o Dr. Raimundo Pinheiro, mostram a necessidade das empresas incentivarem os funcionários para a prática de atividade física e consulta com profissionais especializados, a fim de tratar deste diagnóstico. “Se a empresa faz isso, reduz o risco dos empregados terem complicações no exercício da função”, destaca.

Os números já foram repassados as empresas credenciadas e, segundo Dr. Raimundo, servem como um alerta para a sociedade, na medida de destacar a importância dos exames periódicos e da valorização do investimento na saúde dos profissionais. “É bom destacar a importância da qualidade de vida para conviver com a deficiência. Uma pessoa com diabetes, por exemplo, que toma os medicamentos corretos da forma correta, possui uma alimentação balanceada, e faz caminhadas quatro vezes por semana, terá uma expectativa de vida semelhante ou até maior de quem não sofra com esse problema de saúde”, explica o médico.

Dificuldades para seguir a rotina 

Embora reconheçam um modo de vida longe do ideal para manter a saúde em dia, os motoristas ainda encontram dificuldade para conseguir manter uma rotina que possa garantir a qualidade de vida. A elevada carga horária, e baixas remunerações são os motivos mais citados pelos profissionais para que muitos não consigam se adequar à boas alimentações – é muito comum os “lanchinhos” calóricos entre as viagens –, além da necessidade de estar sempre atento ao trânsito.

Para o motorista particular, Antônio Macedo – que também já trabalhou alguns anos como taxista –, a necessidade de fazer renda acaba sendo maior do que o tempo disponível para praticar atividades físicas ou para se alimentar melhor. “Fico quase o dia inteiro na rua, pois tenho dois clientes. Achar um tempo para fazer comida é complicado, pois eu moro sozinho, e, na maior parte do tempo, acabo tendo que fazer algum lanche na rua mesmo”, comentou.

Já o taxista Edvan de Jesus, que tem 14 anos de profissão, também afirma ser complicado seguir uma rotina com horários fixos. Ele explica que trabalha de 12 a 14 horas por dia, de segunda a sábado, e ainda faz algumas entregas, de moto, em horários livres para fazer renda extra. “Não posso ficar muito tempo parado. Tenho dois filhos, e eles ainda não podem trabalhar, pois são menores de idade”, explicou. No entanto, ele pretende reduzir o ritmo dentro dos próximos dois anos, influenciado pelos relatos dos colegas que já estão tendo que sair da profissão para cuidar da saúde. “A vida de motorista é dura. É preciso muita coragem!”, alertou.

Fonte: Tribuna da Bahia


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