Pacientes são obrigados a parar tratamento por falta de remédios

A denúncia é do presidente do Sindicato dos Médicos do Estado da Bahia ? Sindimed, Francisco Magalhães

A falta de medicamentos para distribuição gratuita na Bahia está generalizada e já atinge, inclusive, pacientes psiquiátricos, nos quais a interrupção do tratamento pode gerar graves e imprevisíveis transtornos para a família e a sociedade. A denúncia é do presidente do Sindicato dos Médicos do Estado da Bahia – Sindimed, Francisco Magalhães, alertando que esse problema “é uma questão até mesmo de segurança nacional”.

Magalhães explica que já houve períodos em que os medicamentos estiveram em falta, mas “de uma forma segmentada, enquanto, atualmente, a escassez é generalizada”. Ele diz que, embora em alguns casos sejam remédios baratos (em torno, até, de R$ 2 ou R$ 3, no caso de dipirona, amoxilina etc.), “grande parte da população não tem a mínima condição de comprá-los.”

O presidente do Sindimed cita um exemplo que ele costuma viver na cidade onde trabalha, Nordestina, no sertão da Bahia: ele receitou uma benzetacil e o paciente voltou sem tomar porque não encontrou de graça na rede pública e não tinha dinheiro para comprar.

O administrador Vitor Anjos, 28 anos, sentiu na pele a sensação de impotência ao tentar comprar uma medicação e não encontrar em farmácias, nem em postos de saúde. “Na última segunda-feira, o médico me receitou duas ampolas de Benzetacil. Primeiramente, recorri às farmácias para comprar o remédio e realizar a aplicação com um enfermeiro de onde eu trabalho. Percorri exatamente dez farmácias da cidade (Comércio, Centro e Barris) e em todas a resposta foi a mesma: estamos sem medicamento, por problemas com a distribuidora e recomendaram, então, buscar um posto médico, onde o medicamento seria encontrado mais facilmente. Percorri exaustivamente quatro postos de saúde, sem sucesso: na Carlos Gomes, na UPA dos Barris, no 5º Centro, no posto do final de linha do Garcia. Já desacreditado, resolvi tentar a última vez no posto Ramiro de Azevedo, onde ainda havia o Benzetacil, em pouca quantidade. A sensação foi de desespero, pela urgente necessidade, já que nem pagando consegui”, desabafou.

Magalhães diz ainda que há falta também de medicamentos de alto custo, como o Fator 8, que tem que ser usado por hemofílicos a fim de evitar hemorragias que podem ser letais, ou gamaglobulina, usada para reforçar o sistema imunológico.

Mostrando-se até mesmo espantado com a situação, o presidente do Sindimed conclui que é “urgente o governo federal procurar resolver essa questão. Ficamos na dúvida: será que o governo central não está repassando os recursos para estados e prefeituras, ou esses recursos chegam, mas não são utilizados? Uma situação desse tipo já ocorreu, por exemplo, na administração municipal passada, em Salvador, quando verbas para remédios chegaram a ser devolvidas.”

Assistência ineficaz

Em artigo publicado no Portal da Educação, Yago Gabriel Assunção  analisa que “o SUS foi criado em 1988, proporcionou muitos avanços no setor saúde. Está baseado no direito ao acesso da população a todos os níveis de atenção, inclusive aos de Assistência Farmacêutica.

Segundo a Organização Mundial de Saúde, a Assistência Farmacêutica é um conjunto de ações desenvolvidas pelo farmacêutico e por outros profissionais de saúde voltadas à promoção, à proteção e à recuperação da saúde, tanto no nível individual como no coletivo, tendo o medicamento como insumo essencial. É de se notar que no Sistema Único de Saúde, temos um profissional que muitos usuários desconhecem o seu papel e para muitos não passamos de meros ‘dispensadores de remédios’, quando na verdade somos muito mais que isso. Nosso papel é garantir o acesso a medicamento, mas como vamos garantir isso se na rede pública de saúde não tem farmacêuticos suficientes?”

Ele prossegue: “Existe um ciclo básico da Assistência Farmacêutica que deve ser seguido e muito bem pensado quando se fala em acesso a medicamento. Se esse ciclo não funciona como podemos garantir o acesso da população a medicamentos básicos? Respondendo a pergunta vamos elencar alguns motivos para faltar medicamentos, que são programação inadequada, aquisição insuficiente, armazenamento inadequado e sem comunicação com o setor de distribuição e a dispensação e a falta do principal responsável por isso, o farmacêutico.”

“Se na distribuição tivermos falhas com certeza o restante do processo vai ficar comprometido. É simples: falta medicamento porque falta gestão. E não precisa ser formado na área para entender como isso funciona. Vamos exemplificar, você cidadão compra um pacote de pó de café de 1 kg, vai fazendo café todo dia, você vai esperar o pó de café acabar para comprar outro? Pela lógica vamos determinar um limite que é o ponto onde daremos início ao processo de compra, que para nós é ir até um supermercado e selecionar o pó de café e comprar.”

Interrupção de  tratamento 

De acordo com a literatura médica, “a interrupção do tratamento psiquiátrico a base de remédios pode gerar diversos problemas. Eles incluem perturbações gastrointestinais e/ou somáticas gerais (náuseas, vômitos, dores abdominais, diarreia, calafrios, fraqueza, cansaço, mialgias e cefaléia) insônia inicial ou média ataques de pânico e delírio movimentos anormais (acatisia, parkinsonismo).

Os sintomas da descontinuação de inibidores seletivos de recaptação da serotonina (ISRS) são diversos, sendo os mais comuns mal-estar generalizado, náuseas, cefaléia, letargia, ansiedade, parestesias, confusão, tremores, sudorese, insônia, irritabilidade e distúrbios de memória.”

Fonte: Tribuna da Bahia


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