Petrobras: escândalos e queda do petróleo fazem estatal perder R$ 610 bilhões

Hoje, a Petrobras vale menos do que antes do pré-sal. De julho até sexta-feira passada, a desvalorização acumulava 51%

Os escândalos deflagrados pela operação Lava Jato que revelaram um esquema de corrupção e, mais recentemente, a queda da cotação do petróleo, estão jogando para baixo o preço das ações da Petrobras. A cotação da estatal afundou tanto que na última sexta-feira passou a valer na Bolsa de Valores o mesmo que no primeiro ano do governo Lula. É como se a empresa regredisse 11 anos.

Hoje, a Petrobras está avaliada em R$ 127 bilhões, bem longe dos R$ 737 bilhões (em valores corrigidos pela inflação) do seu auge, em 2008. A desvalorização, que chega à R$ 610 bilhões, é equivalente a quatro vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do Uruguai.

A estatal vale hoje menos do que antes do anúncio das descobertas do pré-sal. Para investidores do mercado financeiro, é como se as reservas gigantes de petróleo, anunciadas em novembro de 2007, tivessem perdido o valor.

Estados Unidos

A situação da Petrobras também afugentou os grandes investidores da companhia no mercado norte-americano. De acordo com um levantamento feito pelo jornal Folha de S. Paulo, 25% dos investidores institucionais – fundos de pensão, seguradoras e fundos de investimento – reduziram em pelo menos um terço o número de ADRs (recibos de ações) ordinários – os mais negociados na Bosa de Nova Iorque – que possuíam desde o início do semestre.

Desses, 15% venderam todos os papéis. O comportamento dos fundos de investimento começou a mudar em março, quando a Operação Lava Jato veio a conhecimento do público. Quando as denúncias do esquema de suborno e superfaturamento dentro da estatal ganharam as manchetes dos jornais, os ADRs ordinários da Petrobras começaram a cair.

De julho até sexta-feira passada, a desvalorização acumulava 51%. Além dos constantes escândalos no Brasil – que repercutem no mundo -, a Petrobras está sendo investigada pelas autoridades regulatórias americanas e processada por investidores.

Com isso, o volume de negócios da empresa em Nova Iorque ficou acima da média mensal dos últimos dois anos (509 milhões) em todos os meses a partir de agosto, chegando em outubro a um pico de 1,4 bilhão.

Gigantes do gerenciamento de investimentos estão se desfazendo das ações da estatal brasileira. A Franklin Mutual vendeu cerca de 20 milhões de ações no terceiro trimestre – isso corresponde a 90% dos papéis que possuía. A TR Rowe Price se desfez de mais de 18 milhões no mesmo período.

“É arriscado manter esses investimentos.  A ação continua caindo e ninguém sabe dizer se já chegou ao fundo do poço”, afirmou à Folha um analista do mercado em Nova Iorque que não quis se identificar.

“Uma parte da redução pode se reverter quando o balanço for divulgado, mas isso não significa que o risco vá embora. Ninguém sabe quais serão as consequências para a empresa se esses escândalos se provarem verdadeiros”. A Folha procurou os fundos de investimento, que afirmaram que não comentam movimentações em seus portfólios.

País repatriou 1% do dinheiro de corrupção bloqueado

O Brasil repatriou pouco mais de 1% do dinheiro de “corruptos” que conseguiram levar seus recursos desviados a bancos no exterior.

Os dados são do delegado Ricardo Andrade Saadi, o diretor do Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional (DRCI), do Ministério da Justiça, que coloca em dúvida a capacidade de o Brasil recuperar o dinheiro desviado e identificado na Operação Lava Jato no curto ou médio prazo.

Sua avaliação é clara: a Justiça não tem atuado na mesma velocidade do bloqueio de recursos e a recuperação de ativos aos cofres públicos tem sido prejudicada. “Os processos existentes no Brasil conseguiram o bloqueio de cerca de R$ 3 bilhões”, declarou Saadi. “Mas conseguimos repatriar apenas R$ 40 milhões”, indicou.

O diretor não mede críticas à Justiça, apontando que os processos estão hoje levando “dez, quinze ou vinte anos”. Nos últimos 5 anos, o Brasil proliferou acordos de cooperação judicial com vários países.

Os entendimentos permitiram que troca de informações ocorressem em maior velocidade, o que acabou resultando em um número maior de contas bloqueadas e o envio de extratos bancários dos suspeitos. Como modo preventivo, o Ministério Público de vários países passou a bloquear os fundos dos brasileiros sob suspeita.

Saadi, porém, alerta que o dinheiro repatriado  em todos os casos foi  dos processos que foram julgados e condenados no exterior, e não porque eles tiveram um desfecho na Justiça brasileira. Países com a Suíça exigem que um suspeito seja julgado em pelo menos duas instâncias para liberar o dinheiro. Saadi também não vê com otimismo a recuperação dos recursos desviados e descobertos na Operação Lava Jato. “Quanto tempo vai levar para essas pessoas serem condenadas?”, questionou.

Só na Suíça, cinco contas em nome do ex-executivo da Petrobras Paulo Roberto Costa foram descobertas com mais de US$ 26 milhões, hoje congeladas. Em uma recente visita à Lausanne, procuradores brasileiros ouviram dos suíços que o dinheiro será devolvido ao Brasil, inclusive porque faz parte do acordo de delação de Costa.

Mas Saadi alerta que isso não significa que o dinheiro voltará aos cofres públicos imediatamente. “Trata-se apenas de uma mudança de quem está bloqueando o dinheiro”, explicou. Entre as condições impostas pelos suíços está a exigência de que o dinheiro fique em uma conta sob controle do Supremo Tribunal Federal.

“Até quando esse dinheiro ficará bloqueado? E o que vai acontecer se não houver uma condenação?”, questionou. “Isso pode inclusive prejudicar futuras cooperações”, apontou.

Fonte: Correio da Bahia


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