Samu recebe 300 trotes por dia

A estatística beira o surreal. Após nove anos de funcionamento do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU), o número de trotes são altos. Em Salvador, das 60 mil ligações que o Samu recebe mensalmente, nove mil são informações falsas, ou seja, cerca de 300 ligações diariamente.

Conforme o próprio órgão, num estudo realizado pela UFBA, que analisou os Samus de quatro estados, no período de março de 2012 até março de 2013, foi constatado que o Serviço contava com cerca de 700 mil ligações gerais no ano e uma média mensal de 60 mil por mês, deste, 33% eram trotes. Um ano passou e os dados se mantiveram.

Segundo Daniele Canavarro, coordenadora de Planejamento do Samu, a média de trotes permanece entre 30 a 33%. “Infelizmente ainda é alto o número. Isso vai da cultura das pessoas, da educação. Porque quando conseguimos identificar o número e ligamos novamente, vemos que são pessoas de nível alto, pessoas estudadas e não só quem não tem o conhecimento”, afirmou. Ela explica, no entanto, que apesar do índice alto, houve uma redução em comparação aos primeiros anos que o Serviço passou a existir, entre 2005 e 2006. “Reduzimos bastante, antes tinha mais de 50% de trote.

Um fator que foi muito importante para essa redução foi o Projeto Samu nas escolas, que é voltado às escolas públicas e a nossa equipe vai conversar com os alunos, mostrar a importância do serviço. Isso tem ajudado na redução. O Projeto visa conscientizar as pessoas, orientar os alunos, orientar também os pais para que orientem os seus filhos”, disse.

Canavarro também pontuou que o Projeto Samu nas Escolas, ensina também aos alunos alguns procedimentos que devem ser feitos antes da chegada do Samu, em casos de acidentes. “ Ensinamos como atender um paciente com Parada Cardíaca, por exemplo. E também a importância do procedimento correto, antes da ambulância chegar ao local do acidente. Percebemos através de estudos, que algumas medidas ajudam significamente a possibilidade de sobrevida da vítima”, ressaltou a coordenadora.

Conforme a coordenadora do órgão, não é possível identificar os trotes, porém dos que foram identificados a maioria é feita por jovens e crianças. “Não conseguimos identificar todos. Geralmente são jovens, muitas vezes crianças, às vezes quando identificamos o número e retornamos a ligação, o pai que atende. Acho que pelo fato de ter apenas 3 dígitos (192), e ser uma ligação gratuita, facilita o acesso às crianças”, disse. A maioria das ligações são feitas pelo celular.

Segundo Canavarro, antigamente havia muitas ligações do orelhão, situação que não ocorre mais devido a própria falta de uso dos orelhões nas ruas da cidade. Pelo Código Penal Brasileiro, passar trote para o SAMU não é considerado crime, o que, na visão da Coordenadora é uma falha.

“Deveria ser crime, ter algum tipo de punição, mas talvez também não resolvesse a questão, porque não é só punir, é educar. As pessoas têm que ter a consciência que vidas deixam de ser salvas por conta desse alto número de trotes”, pontuou. Sendo assim, quando o órgão descobre que foi vítima de um trote e identifica quem o trolou, não pode tomar nenhuma medida punitiva. “Não tem nenhum artigo no Código Penal que fala em trote. A gente não pode fazer nada, só orientar, e tomar medidas educativas, de conscientização mesmo. Já fazemos isso nas escolas e sempre que percebemos algum caso”.

O Samu conta hoje com 33 ambulâncias básicas e 8 avançadas (possuem médicos). Para Canavarro, é uma quantidade considerada suficiente se houvesse apoio da população para usar corretamente o recurso. A média de tempo do momento que a pessoa liga para o Samu até a ambulância chegar é cerca de 29 minutos. Quando ocorre uma chamada falsa, o órgão perde cerca de uma hora, deixando de atender quem realmente precisa.

“O tempo estimado até a ambulância chegar eu considero alto, o ideal seria 10 minutos. Porém, alguns fatores interferem, como as dificuldades no trânsito, buracos na cidade, educação no trânsito onde a população não dar passagem aos carros do Samu, além dos inúmeros trotes diários, que deixam as unidades ocupadas”, afirmou.

Fonte: Tribuna da Bahia


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